acção gera reação

Quem ainda não viveu a experiência de estar dentro de um veículo parado no meio do trânsito? Uma enorme seca, não é!? Felizmente estou pouco habituado, mas, um destes dias penei vários minutos ao volante, num vagaroso pára-arranca por eternos minutos que até tive vontade de desprender a bicla que tinha presa ao tejadilho do carro e furar pelo engarrafamento. Mas também não ia longe com a pedalada pois estava “preso” numa auto-estrada. Então, aproveitei para passar da melhor maneira o tempo perdido e fui fazendo alguns estudos informais do que à minha volta ia vendo, especialmente os comportamentos dos condutores e cenas relacionadas com a sua condução e educação.


O que desde logo me desviou do aborrecimento extremo foi observar o tempo de reacção dos que “sofriam” à minha frente. Uma observação interessante e uma constatação que provavelmente não é surpreendente: o mais stressado é aquele que sempre se atrasa mais. Um caso clássico de quem se acha esperto e incapaz de controlar a fleuma, sendo rápido a mudar sistematicamente de faixa, porque acha que ganha tempo com isso, e depois de conquistar o espaço lá vem de novo o extravasar de frustrações quando dá conta que a fila pára e se vê ultrapassado pelos que havia ultrapassado! Torna-se uma espécie de competição, onde ninguém se respeita. Obcecados contra stressados para não dar uma nesga aos aventureiros, não vá o outro ter a mesma ideia, e se o da frente não arranca logo, demora uma eternidade a reagir porque está a pensar na morte da bezerra ou distraído com os seus brinquedos electrónicos, lá sai uma buzinadela e uma caralhada. Daí até ao incongruente road rage é um instante!

 


Além da habilidade natural, o que é uma diferença óbvia entre pessoas ao volante, provavelmente haverá um grau invisível de diferença entre nós, como a acuidade visual, o estado de humor e a saúde física. É interessante notar que as características especiais e pessoais dos condutores respondem pelo seu comportamento, e nem mesmo escondidos por uma caixa metálica que os encobre, os maus condutores são fáceis de reconhecer. Provavelmente, haverá uma disparidade de tempo de reacção mediante a capacidade, reflexos e variáveis extrínsecas à pessoa, mas respeito que é bonito na estrada pouco se vê. Para não facilitar e evitar o acidente, cada qual será sempre responsável em reduzir essa disparidade, melhorar comportamentos, estar atento e antecipar a reacção.

Claro que tenho de comparar esta prática com a minha experiência de condução, sobretudo na perspectiva que tenho do selim. O exemplo mais prático é o que verifico no movimento da Massa Crítica, quando um grupo de ciclistas pára no semáforo vermelho, coloca um pé no chão e aguarda pacientemente. Uns aproveitam para por a conversa em dia, um ou outro aproxima-se da frente e cumprimenta os restantes, cientes que a sua presença é notada. Mal o semáforo fica verde, voltam a colocar o pezinho no pedal e começam a mover-se, quase ao mesmo tempo. Pouco tempo se passa entre a mudança da luz e o início do movimento. As acções dos ciclistas são calmas e coordenadas. O seu tempo de reacção e movimento são diferentes, mais lentos, mas não provocam congestionamento nem conflitos no grupo. Na maioria das vezes um ciclista não espera.

A título de comparação, eu diria que, independentemente de um ou outro não cumprir as regras, os ciclistas estão mais atentos, os seus movimentos estão ajustados ao que observam ao seu redor. Geralmente têm melhores tempos de reacção. O ciclismo no trânsito desenvolve um conhecimento ambiental, maior consciencialização e coordenação com os outros agentes do trânsito, com o que pode esperar dos automobilistas e peões, na variação de reflexos, tempos de reacção, para tudo, inclusive conduzir veículos motorizados.

Nos movendo e cruzando com dezenas de carros, pessoas e outros ciclistas, para o ciclista a atenção e rapidez de reacção pode ser uma questão de vida e de morte. A auto-preservação é, provavelmente, o mais forte motivador quando se trata de melhorar o seu desempenho e segurança, o que pode explicar o maior tempo de reacção dos ciclistas em relação aos automobilistas. Assim, configurar um estudo mental para testar as hipóteses por mim desenvolvidas, enquanto sentado e entediado no interior do meu carro, foi proveitoso, acho! Por agora, vou apenas ser um feliz ciclista a maior parte do tempo, aproveitando todo o tempo.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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3 respostas a acção gera reação

  1. Nelson Branco diz:

    Os engarrafamentos são de facto enfadonhos, stressantes e um autentico tempo perdido!!! Ainda para mais, enclausurados numa espécie de lata de conserva…
    Havendo essa possibilidade não há melhor que as deslocações de bicicleta, exercitamos corpo e mente e multiplicamos as hormonas da felicidade. Esperamos pacientemente num semáforo ou em qualquer outra situação, pode até ser uma oportunidade para respirar e controlar a respiração.
    Agora vai… senão ainda chegas atrasado à Massa Crítica.

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  2. paulofski diz:

    Uma bicicleta que circula no meio de dezenas de carros não atrapalha, embora haja quem ainda reclame, mas não os vejo reclamar muito quando um único carro parado ou mal estacionado perturba a fluidez do trânsito! É um facto, uma bicicleta não congestiona e, como tal, pedalar no trânsito ganha outra eficiência. Ainda há quem se incomode com um ciclista à sua frente e não se lembra que pode ser menos um carro à sua frente!

    No engarrafamento a bicicleta não precisa ficar parada, à espera. Enquanto os carros param, a bicicleta transita, sendo em muitos casos bem mais rápida que o carro. Como uma bicicleta não pode atingir grandes velocidades, tem-se a sensação que a pedalar se leva sempre muito mais tempo. Mas nós sabemos que na cidade os carros perdem claramente esta batalha.

    Infelizmente o movimento Massa Crítica do Porto tem estado bastante fraquinho e a perder adesão. Não fosse a perseverança de alguns… e mais uma vez tive de faltar à reunião da última sexta-feira na Praça dos Leões. Espero que reanime nos próximos meses.

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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