pé de vento, pingo no nariz

a Etielbina sabe nadar, Yooo…

Tal qual fazemos para outro tipos de viagens, as viagens de bicicleta podem ser planeadas das mais diversas maneiras. Seja uma ida para o trabalho, um passeio de fim-de-semana ou ir até ali, a Santiago de Compostela, devemos prever o que vestir, o que levar e qual bicicleta optar. Por mais simples que seja a viagem, poderemos ser surpreendidos por algo que à partida menosprezamos, como por exemplo ter câmara de ar de reserva mas depois dar conta que a bomba ficou em casa. Outras vezes é o tempo que nos prega uma partida a meio do caminho e levamos uma molha das valentes. Como afinal estamos na época das tempestades temos de contar com isso e não ficar à espera que passe.

Como a previsão de chuva e vento fortes se estende por toda a semana, a indumentária diária para pedalar até ao trabalho teve um upgrade condizente com as condições climatéricas. O kit para pedalar à chuva é básico e não tem nada de especial. Para além das botifarras e do “kispo”, normais para a época, basta substituir o guarda-chuva por umas calças impermeáveis com zip na perna. No alforge coloquei de reserva uma capa que tinha guardada ainda do tempo em que ia para o tribunal do Estádio das Antas.

Pessoalmente, a alternativa para chegar ao trabalho seria caminhar quase 1 km, apanhar o metro e depois o autocarro. Vendo bem as coisas e fazendo esse trajecto apetrechado com um chuço, tanto em dias diluvianos como o d’ontem ou de morrinha à moda do Porto, chegaria sempre ao gabinete a sacudir a capota e pronto a estender as calças no arame… E nem a propósito, numa conversa tida há bocado, foi-me testemunhado que, numa corridinha sob um mega-chuço de senhora, entre a cobertura e o carro no parque de estacionamento, coisa de uns 50 metros, a madame ficou um pinto (galinha pró caso) e depois demorou quase três horas no trânsito para secar as meias! Mesmo regressando a casa sacudido por um verdadeiro tufão, dando as voltas que tinha a dar, fui na Etielbina por entre rios nunca antes navegados e cheguei a bom porto com o rabo sequinho. Pronto vá lá tive de passar a toalha nas mãos e nas fuças mas também quem anda à chuva molha-se. Seca mesmo é andar de carro.

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por terras de Valentim

Provavelmente a única ciclovia (dupla) de Gondomar, na Av. da Conduta

Vista a anormalidade da quantidade de ruas (palavras do taberneiro) que eu teria de percorrer por terras de Valentim, vejam só o quanto tenho de desbravar no mapa cor-de-rosa, decidi pôr rodas e pernas ao caminho. Fintando o vento e a chuva, ontem fui no lombo da GOrka para a minha segunda prospecção na filigrana rodoviária do concelho de Gondomar.

Em Fânzeres vivi mais de 25 anos e foram essas ruas tranquilas que me ensinaram a dar as primeiras e, mais tarde, longas pedaladas. Só que ao fim de tanto tempo sem percorrer caminhos de outros tempos, o meu mapa mental estava há muito desactualizado. Assim e para reunir boa informação para o voluntariado dos mapas, decidi conhecer in-loco as novas artérias gondomarenses.

na avenida com nome de presidente da republica que por acaso é o mesmo d'agora

O meu primeiro objectivo foi interceptar a Linha Laranja, que liga o Estádio do Dragão (Puooortooo) a Fânzeres por Metro. Após cruzar a linha junto à Igreja de Rio Tinto, retorcedi para rever a estação de combóios. Depois fui para os lados de Baguim do Monte e foi depois entre a estação da Venda Nova e da Carreira, a subir para a estrada da Formiga, que cruzei com o nosso heroi do dia.

– Então, isso vai ou não vai?
– Vai, vai, mas agora vou a pé!

António Couto, ciclista urbano/rural decidiu testar os pneus boiaux da sua velhinha Reynolds.

– Há dezanove anos que não pegava nela e tive de lhe trocar os pneus, mas o de trás não está bem. Anda aos saltos!

Realmente o pneu fazia uma curva e contracurva na zona da válvula. – Acho que é só vazá-lo, endireitá-lo e voltar a encher!, disse-lhe, mas sem muita convicção. Depois a minha curiosidade levou a conversa para saber mais daquela relíquia e o sr. António que só tinha olhos para a GOrka.

– Esta deve ter uns quarenta anos e tenho outra, guardada em casa do meu filho, que é mais antiga e mais pesada. Perfiro esta, só que agora estou mais enferrujado do que ela!

Contei-lhe o que andava eu por ali a fazer, – Você veio da Prelada até cá!, e depois falamos sobre as melhorias que o Metro trouxe para a vida das pessoas. Nem a chuva fria e pesada que entretanto nos apanhou nos demoveu o paleio.

– Sabe que quando era mais novo ia de bicicleta para o trabalho e todos os dias subia a Serra de Valongo!

Despedi-me do sr. António, invejando-lhe o espírito jovial (esqueci-me foi de lhe perguntar a idade, mas também o que isso importa) e a sua belíssima bicicleta.

Voltei à estrada, reencontrei a linha do Metro e mais à frente dei com a Avenida da Conduta que rasga boa parte do concelho de Gondomar de Norte a Sul. É uma via larga, perfeitamente ciclável onde, pelo que pude ver, muitos gondomarenses aproveitam para umas corridas saudáveis. Entretanto surge a ciclovia, com +/- 1 km, a qual vai dar praticamente ao centro da cidade. Após uma subida razoável e um paralelo intragável mesmo em frente à casa do Valentim, a CMG, entrei nas ruas Novais da Cunha e Luis de Camões, encontrando a nacional 209 para descer com os olhos em lágrimas pela velocidade impulsionada até à rotunda do Freixo. Dali até casa fui pelo caminho habitual junto ao rio.

Que não digam que Gondomar é perfeitamente ciclável!

O mapa de todo o percurso vem a caminho porque agora estou cansado.

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tirando fotografias e conversando ao longo do caminho


Downtown from behind é um projecto fotográfico com o objectivo de destacar um conjunto de pessoas que pedalam por ruas e avenidas na baixa de Nova York. São ciclistas comuns, fotografados por trás e enquadrados fisicamente, culturalmente e socialmente nas ruas da big city. O projecto será finalizado em Março de 2012, com a publicação de um livro com todas as fotos produzidas. Enquanto isso, poderão conferir as fotografias e saber mais sobre este projecto.

Ao fim e ao cabo é o mais ou menos que tenho tentado fazer lá prás bandas do concelho de Gondomar para o projecto dos mapas.

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até porque não está assim tão pesada!

Estacionada nas escada da Rua de São João Novo, Praça da Ribeira.

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ciclofilia [12] gotas de lluvia sobre mi bicicleta

A todos y todas las ciclistas de Valencia (e arredores) que demuestran que también se puede pedalear bajo la lluvia.

By Valencia Cycle Chic

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com uma perna atrás da outra

cheio de speed na Rua da Constituição

O melhor da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história.
O maravilhoso é viver cada momento como se fosse agora.
Claro que a vida prega partidas.
É natural que, por vezes, a perna falha, o pneu fura, chove demais.
Mas… pensa, tem graça viver sem dar uma gargalhada pelo menos uma vez ao dia?
Faz sentido ficar de mau humor durante o dia todo só por causa de uma discussão no trânsito?

Ontem à tarde apanhei o sr. Mário (ufa que o homem tem pedalada)

“O Mário de Almeida Santos, ganhou a vida a conduzir carros, mas é a bicicleta que a salva um bocadinho todos os dias.”

– Ou ando de canadianas, ou ando de bicicleta. Não tenho outra hipótese.

Convido-vos a brindar a este vigoroso testemunho na Adega do ciclista.

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apanhada, algemada, detida

Ontem à tarde na Praça Parada Leitão,

… era ver automobilistas que aproveitando a falta de meco, para deixar entrar os eléctricos, assim que topavam os moinas davam meia volta com o escape entre as rodas. Na boa meia hora que estive na esplanada do Piolho eles permaneceram ali. Chegou o 22, depois o 18, os eléctricos foram dar as suas voltas e eles ali, à espera do quê não cheguei a perceber!

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passe a publicidade [6] Cargo bikers make you look better

O pessoal da empresa de mensageiros em pedal MISSATGERIA A PINYÓ fez este vídeo bué de fixe só para mostrar a reacção das pessoas quando vêem uma bicicleta de carga que passa.

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peões vs ciclistas (a rodopiar)


Li recentemente que um estudo revelou que cerca de 1000 peões são feridos por bicicletas por ano no Estado de Nova York (algo como dois terços só na Big Apple). Comprovou o estudo que essas mil pessoas ficaram feridas o suficiente para recorrerem a um hospital para tratamentos. Por outro lado, dificilmente encontraram o registo de dados de acidentes mortais envolvendo peões e bicicletas, já que ao passo, no mesmo período, constataram que mais de 300 peões morreram em consequência de ferimentos provocados por atropelamentos com veículos automóveis.

O que esses números não identificaram foi quem foi (é) o maior culpado desses acidentes. Há por aí tanta malta que caminha descontraída distraída, a pensar na morte da bezerra, que nem que se apercebe onde põe o pézinho. Peões que primeiro descem dos passeios e só depois olham para o tráfego (quando olham!) ou a sair de entre carros estacionados. Eu já perdi a conta ao número de vezes que, quando pedalo numa ciclovia e em ruas pedonais (Cedofeita, por exemplo), tenho de me desviar de totós de cabeça no ar, a conversar ou a enviar mensagens ao telemóvel, de outros que correm com fones ouvindo música e de crianças que fazem reviravoltas súbitas à minha frente. Nem preciso recordar o que estes alienados comportamentos podem causar à integridade física de um ciclista e eu já fui vítima de quedas, felizmente sem grandes lesões para além dos calafrios. Mas há também comportamentos de alguns ciclistas que me fazem passar dos carretos, sobretudo os cromos das bmx, com atitudes irresponsáveis em situações onde não só se colocam eles próprios em sério risco como arriscam o coiro alheio ao circular em zigue-zague por ruas pedonais, nos passeios e a descer escadas em velocidade extrema.

ciclovia de Gaia

Cabe àqueles que pedalam uma boa dose de senso, andar defensivamente e prestar atenção a tudo o que os rodeia para que a sua capacidade de manobra seja mais eficaz, podendo travar ou então circundar o pateta que se atravessou à sua frente e assim evitar o acidente. Menor velocidade significa menor probabilidade de uma colisão fatal.

As pessoas deveriam entender que as ciclovias são vias onde há uma forte possibilidade de encontrar uma bicicleta a rodar. Quem pedala receia ir bater com os ossos no cimento e salvaguardando-se toma precauções redobradas quando circula por entre bandos de gente desorientada. Lembrem-se que não é fácil superar as leis da física. Se estamos a compartilhar os passeios, trilhas, estradas, ruas ou ciclovias, há “maneiras de ir”, que, se bem respeitadas as regras, são destinadas a nos manter a todos seguros.


Os condutores de automóveis deveriam perceber que quanto mais bicicletas menos carros e menos congestionamento. Respeitar as regras não é assim tão complicado. Com um comportamento mais consciente, mantendo os olhos na estrada, conduzindo devagar, gastam menos combustível e ainda chegam onde vão ao mesmo tempo. Não se esqueçam que somos todos passageiros, compartilhamos o mesmo espaço, apenas tentando chegar onde precisamos estar.

O melhor que qualquer um pode tentar fazer é ser responsável pelas suas próprias acções e, se possível, um pouco mais complacente com as distracções dos outros. Todos nós devemos compreender que todas as pessoas, dirigindo, pedalando ou caminhando são passíveis de cometer erros. Alguns são precipitados, mas isso não significa que sejamos todos imprudentes.

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um país a pedalar

Depois de depenicar do Chop Suey, servido na Adega do Velho Lau, sirvo-me agora deste grande (no sentido de enorme) “Pato de Pequim” de Rui Boavida, publicado na Revista Macau em 2007. Para aperitivo, os Queen com umas tapas espanholas à moda de Pequim.

“En bici puedo ser una más, una entre mil trescientos millones…
Y con ellos pedaleo, pedaleo, pedaleo” (Esperanza Calvo
)

A bicicleta já não é o único ícone de um país que se moderniza. Apesar da transformação, as duas rodas continuam a ser o transporte por excelência na República Popular da China e em circulação existem ainda cerca de 500 milhões de bicicletas

Há coisas que nunca se esquecem e pedalar uma bicicleta é uma delas. Com o desenvolvimento económico da China, o número de carros nas cidades tem vindo a aumentar, mas a bicicleta continua a dominar as avenidas e estradas da China.Em português chamavam-lhe “pasteleiras”. Diz-se que o nome vinha de serem bicicletas lentas e pesadas. Mas, na China, a dificuldade de pedalar uma pasteleira era também a mestria de conduzir as duas rodas mais famosas do país – a Flying Pigeon. Originárias da cidade costeira de Tianjin, as primeiras datam do ano de 1950 e hoje só muito raramente se encontra um exemplar original.
“Já não temos para venda”, diz o empregado numa loja de Pequim.
“Só os mais velhos é que ainda pedalam essas bicicletas antigas”, continua o rapaz que vende os mais recentes modelos da marca Giant. Entre a oferta do que há na loja, destacam-se as cores vivas e alguns dos exemplares mais recentes de bicicletas com rodas mais pequenas. “O peso e o design tornaram-se condições essenciais na escolha”, explica o vendedor. O desenvolvimento dos últimos anos tem vindo a modificar a aparência de Pequim que se caracterizava pelos bairros antigos chamados de hutangs. Mas se as novas construções de arranha-céus são agora o que mais salta à vista, é ainda nos hutangs que existem que se encontra o espírito daquela que foi a capital imperial desde o século XV. E para entrar nestes cantos escondidos da cidade nada melhor que as duas rodas. De ruas planas, a capital chinesa ainda acorda todos os dias com os primeiros ciclistas a pedalar em direcção aos seus trabalhos. Ao amanhecer são as bicicletas que definem o trânsito na cidade. E entre os novos modelos, as velhas “pasteleiras” e as bicicletas com atrelados, as ruas simétricas preenchem-se ao som dos pedais.

Uma questão de personalidade  

As bicicletas têm as suas almas e vida. A frase vem no livro de Wang Wenluan com o título “Uma Vida com as Bicicletas”. Num trabalho fotográfico de vários anos, Wang Wenluan retrata bicicletas de todo o mundo, embora inspirado pelo seu país Natal – a China. A recordar desde o dia em que pela primeira vez conseguiu o equilíbrio num selim até ao dia em que comprou a primeira Flying Pigeon, o fotógrafo fala por imagens do mundo das duas rodas com a célebre mensagem uma vez que consegues pedalar nunca mais te esqueces”. E é esta também a ideia que continua a inspirar milhões de pessoas por todo o país, onde muitos dizem que já se nasce a pedalar. Wang Wenluan expôs o seu trabalho em várias galerias por todo o país. A vida das bicicletas faz parte da vida da China e, pela naturalidade de ser um objecto presente na casa de todas as famílias, há quem nem esteja consciente da sua importância. Até ao dia em que faz falta. Relembra a infância e conta que no dia em que toda a Nação prestava homenagem ao Presidente Mao que tinha falecido, se esqueceu de colocar o cadeado na bicicleta que a mãe lhe tinha emprestado. O roubo da bicicleta custou-lhe um peso na consciência durante muito tempo ao ver a mãe acordar duas horas mais cedo para ir trabalhar. Pequenas histórias da memória de alguém que de tanto olhar o mesmo meio de transporte, decidiu eternizá-lo em fotografia. Entre todos que as utilizam para levar os jornais, garrafões de água, ou até mobiliário atrelado, entre muitas outras coisas, há uma história de vida. Da bicicleta e da pessoa.

Na capital, as esquinas das ruas mais antigas continuam a ser os melhores locais para encontrar quem conserte bicicletas. Rodas furadas, correntes que saltam ou se partem ou, simplesmente selins fora do lugar, enchem os cantinhos improvisados de loja onde, nos intervalos do trabalho, os mecânicos se sentam a jogar mahjong com os vizinhos. Sem segredos aparentes, as duas rodas ocupam a vida destes senhores que raramente se conheceram a fazer outra coisa. Contam-se histórias entre o passado e o futuro das duas rodas.
“Para nós isto não é uma forma de exercício, mas um meio de transporte”, afirma um velho senhor sentado ao lado da banca do amigo mecânico.
Ninguém pensa que a cultura das bicicletas se vai perder na China, mas a comodidade de um carro começa a convencer muitos que optam pelas quatro rodas. A opinião é geral, “é mais conveniente”. Porém, ao mesmo tempo que o conforto do carro já é possível para uma grande parte das famílias de classe média em Pequim, o problema do estacionamento cresce paralelamente. Onde antes existiam ciclovias alinham-se hoje viaturas vigiadas pelos seguranças da rua. E, à semelhança de muitas capitais modernas, começa a haver mais carros que espaço, com o preço do estacionamento a aumentar. Para quem ainda segue a pedalar, o aumento do trânsito em Pequim torna as curvas mais perigosas e apertadas. No entanto, a cidade continua a estar imaginada para a maioria que são as bicicletas. Mesmo com a velocidade cada vez mais acelerada da vida moderna, nas horas de ponta os carros passam horas no pára-arranca, enquanto que, ao lado, aparentemente devagarinho, as bicicletas ultrapassam todos. Oficialmente há hoje três milhões de carros em Pequim. Não estando tão contabilizadas, ninguém adianta números certos sobre as duas rodas. Por um lado, porque não exigem registo ou matrícula e, por outro, porque são parte da herança histórica da capital quando a maior parte dos carros que circulavam eram apenas táxis ou os carros do governo. Crê-se que em todo o pais circulem hoje 500 milhões de bicicletas, o que representa quase metade da população do país. Mas o trânsito problemático em cidades como Pequim deve-se aos carros.

Actualmente, por dia, há 1000 carros novos a entrar no trânsito da capital. Para os mais jovens, a comodidade do carro não se pode comparar ao esforço dos mais velhos que pedalam dezenas de quilómetros por dia. Entre a nova geração com poder de compra, há igualmente uma consciência ecológica sobre a vantagem de pedalar. Para muitos, recuperar a bicicleta enquanto meio de transporte mais do que manter um ícone cultural pode ser uma forma de melhorar o ambiente da cidade.

Um legado maoista

Nostálgicos de uma China que não conheceram, muitos estrangeiros optam por comprar bicicletas antigas a que chamam “bicicletas do tempo do Presidente MaoTse-tung”. Mas a expressão não convence ninguém em chinês. “As bicicletas daquela época eram as Flying Pigeon e hoje quase ninguém tem”, diz um comerciante que aluga bicicletas ao dia. O tema puxa sempre mais gente à conversa que falam das histórias das duas rodas na sua vida. “Era muito importante quando conseguíamos ter uma bicicleta porque era a melhor forma de transporte e a mais barata”. A fábrica da Flying Pigeon em TIanjin continua a apostar na marca que eternizou, mas porque as pasteleiras já não são o que o mercado procura, o grupo económico optou por modelos modernos. Como um nome de referência no mercado, as iniciais FP (de Flying Pigeon) continuam a valer por si só e a exportação já chega a 50 países diferentes.

Há coisas que nunca se esquecem

A primeira campanha chegou no ano passado (n.d.r. 2006). Uma associação promoveu uma semana para comemorar as bicicletas na capital. Acompanhada pela exposição de Wang Wenluan, a actividade desenvolvia-se na rua. Mais do que sensibilizar, pretendia alertar para a importância das duas rodas na vida moderna. Para os velhos mecânicos, a cultura do carro pode desenvolver-se paralelamente sem ameaçar as bicicletas. Porém, para os ciclistas, os carros são o maior perigo. Tendo em vista a segurança de quem pedala, estabeleceu-se em Pequim que a bicicleta tem prioridade no trânsito. No espaço onde se alugam bicicletas ao dia, o comerciante conta histórias enquanto enche urna roda. “As bicicletas hoje já não são moda e Pequim tornou -se muito grande para pedalar. Claro que o carro no Inverno é muito mais fácil de conduzir”. Ao falarmos do trânsito e da poluição preocupante, “é normal que assim aconteça”.

A China descreve-se em bicicletas? O silêncio de um pensamento. “Sim, talvez seja o que mais se vê na rua”, nota, enquanto olha a avenida em frente da sua loja. A pedalar desde há décadas, os chineses seguem ainda hoje ao ritmo dos pedais que acordam a cidade. Capazes de levar a família toda – pai, mãe e filho – em duas rodas, para quem sempre se conheceu a pedalar, o exercício físico fica reservado para outras actividades como, por exemplo, a patinagem ou tai-chi. Os ginásios pagos não apostam muito nas bicicletas ergométricas que não saem do lugar. “A maior parte não gosta de pedalar se não for em movimento”. An Xiao sublinha que é uma questão de praticar, mas prefere ir para as montanhas com a bicicleta de corrida feita por si. O primeiro dia, a primeira bicicleta ou a primeira queda, parecem ser registos de toda a gente que ainda escolhe as duas rodas na China. Há coisas que nunca se esquecem. A modernidade e o desenvolvimento não ameaçam a existência do meio de transporte, considerado como o mais característico do país. “As cidades foram imaginadas para pedalar, mas muitos querem escolher uma forma mais fácil de mover-se” sustenta An xiao.Com mudanças ou eléctricas, as bicicletas de Pequim moderno redefiniram-se. Ao recordar as velhas pasteleiras, há quem diga “aquelas eram mais bicicletas”. Mas os tempos são outros e mudaram-se as vontades. Só que apesar da aparência diferente, as duas rodas continuam a ser a melhor forma de sentir e conhecer a China. Um país a pedalar.

Rui Boavida

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