
Todos os anos, desde 2010, naquela semana estranha entre a véspera de Natal e o Ano Novo, a marca de roupas de ciclismo Rapha desafia os ciclistas a pedalar 500 quilómetros em oito dias. Para além do marketing associado, o desafio proposto pelo Clube Rapha é uma forma de incentivar o derradeiro esforço velocipédico para se atingir metas anuais, queimar calorias natalícias em excesso… ou, simplesmente, arranjar uma desculpa e fugir de casa por algumas horas!
Em 2023 o desafio entrou no seu 13º ano de existência. Se pedalar uma média de 62,5 km por dia durante 8 dias não é nada de outro mundo, eu que até nem sou muito destas coisas, quando há uma bela Cannondale bike XPTO em jogo, cliquei no botão e fiz a inscrição. Não meti férias nem me socorri do rolo, coisa que nem tenho, mas com determinação e empenho, sem comprometer rotinas e compromissos natalícios, teria as condições necessárias para o sucesso da coisa.
Há sempre uma forte probabilidade dos afazeres da quadra natalícia virem a atrapalhar a pedalada, como o facto da época festiva envolver muitas comezainas e algumas bebedeiras. Depois, temos os compromissos familiares a que não conseguimos fugir. Ir fazer compras de última hora também não nos dá o livre-trânsito de desaparecer porta fora e ir pedalar durante um bom par de horas. As festividades têm de ser bem negociadas, lá em casa e com as bicicletas disponíveis.

Se poderia fazer tudo de uma vez… eh pá, há quem o faça, mas para quê!? O objectivo aqui seria aproveitar o tempo livre nas folgas e vésperas dos feriados para umas voltas mais esticadas, e ir dando ao pedal consoante a possibilidade ao longo dos dias de trabalho. Infelizmente, para mim, o Natal não é sinónimo de férias, nem no Algarve e muito menos nas Caraíbas, e, caso assim fosse, a bicicleta seria mesmo a última coisa a ser incluída na bagagem.
Quando se trata de dia útil para pedalar, à partida o dia de Natal estava para mim fora de questão. Mesmo assim, com a desculpa de ir fazer o papel de Pai Natal, lá consegui sair no dia 25 para uma mini-micro volta de 15km (foram mais, mas o Strava stravou e mais não contou). Já foi muito bom para “desmoer” as rabanadas. Por acaso até foi o dia mais agradável no que ao clima dizia respeito, mas sabendo que no dia seguinte iria abrir o presente da tolerância de ponto governamental, não me preocupei e programei o dia para a voltinha mais extensa.

Chova ou faça sol, as pedaladas casa-trabalho vs. trabalho-casa diárias, o “#commutescount”, são para cumprir. São Pedro tem sempre uma palavra importante a dizer e eu sabia à partida que teria de lidar com o senhor Inverno. Se não é frio é chuva, se não é o vento é tudo misturado. O melhor é não contar com as alterações climáticas no… e estruturar bem a coisa. Mas, com três dias de chuva inclemente, precisamente nos chamados dias úteis, isto nas previsões mais otimistas, a coisa ira resumir-se aos mínimos indispensáveis, o que não daria para acumular quilometragem em metade do prazo disponível. Feitas as contas, no derradeiro fim de semana do ano civil de 2023 teria de pedalar contra o prejuízo.

Pedalar, seja para cumprir 500 quilômetros em 8 dias, seja para pedalar os 4 que separam a casa do trabalho, a bicicleta tem de estar preparada e afinadinha. Na estrada estamos sempre sujeitos a avarias e não temos uma oficina ao virar de cada esquina e que nos desenrasque. O selim da gOrka teimava em desapertar e por mais aperto que lhe ia dando, o parafuso ia me moendo a paciência e as costas. Esse handicap teve influência na escolha de percursos para os derradeiros dias, pois a cada paragem lá ia eu fazer fosquinhas com a chave umbraco. As voltas basearam-se num raio de acção mais curto do que inicialmente pretendia.
Um parafuso de titânio é coisa para resolver definitivamente o problema, só que não! O busílis da questão estava na base do espigão. Depois de tanto apertar e reapertar, no final da volta de sábado, forçadamente encurtada, decidi atacar o problema pela raiz. Assim que parei a actividade no Strava e entrei na arrecadação, de roupa suada colada ao corpo, estive mais de uma hora para solucionar o problema à boa maneira McGuyveriana. Quando entrei no chuveiro estava certo que no derradeiro dia do desafio não iria sentar as nalgas num baloiço. Eis o último dia do ano que veio a ser um 31!
A manhã estava bastante sombria. Pouco depois de me fazer à estrada, uns pingos de chuva misturavam-se com alguns pingos do meu nariz. A ressaca de uma noite tremida e a perspectiva de 90 km pela frente não foram, no mínimo, as melhores motivações para sair da cama. Para além disso, pernas fraquejadas e vento contrário não combinam bem. “Oh diacho, tu queres ver!” Não era minha pretensão repetir rotas, então optei pela monotonia perto de casa em vez de arriscar e morrer na praia. Assim, com o ritmo adequado à energia, segui o plano da praia, aproveitando para passar pela casa do velhote e lhe dar um abraço.

Assim, quando finalmente entrei em casa e pendurei a bicicleta havia acumulado mais quatro quilómetros para além dos mínimos exigidos. Ena… Para lá da satisfação pessoal de concluir o dito cujo desafio, ficando assim habilitado à tal máquina que, só em sonhos, me poderá sair na rifa – quem não arrisca não petisca, não é mesmo? A medalhinha digital da Rapha Festive 500 vai permanecer na sala de troféus como o resultado do esforço e da minha teimosia tenacidade. De que me posso queixar quando se ganha um prémio bónus acrescido. Para lá de ter tido um reveillon 2024 de molho, uma noitada bem suada, ainda tive direito à participação, nos dias seguintes, no Brufen 600! Ca Categoria, hein…
Bom Ano e Boas pedaladas.













Tu não fazes por menos! Admiro essa paixão.
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Ó Nelson, foi maluqueira mesmo. Este ano tive juizo e não fui em cantigas “rapha” festivas 🙂
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