Patri

“Tinha 37 anos, estava grávida de cinco meses e era investigadora do Departamento de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, mestre em Engenharia de Materiais. Patrizia Paradiso perdeu a vida em plena avenida da Índia, Lisboa, onde circulava de bicicleta, depois de ser ablaroada por um automóvel ligeiro.

A sua morte motivou a organização de uma vigília com o objetivo de homenagear as vítimas mortais de acidentes com bicicletas e a exigir alterações à lei que proteja os ciclistas que circulam nas estradas. O encontro está marcado para 3 de julho, na avenida da Índia, entre Algés e Belém, onde Patrizia perdeu a vida no passado dia 26.

“É comum o sentimento de insegurança na via pública devido ao excesso de velocidade praticado. Os utilizadores vulneráveis, pela sua condição, são quase sempre as vítimas da sinistralidade dentro da cidade”, explicam os organizadores da vigília no Facebook.

Os ciclistas exigem ao governo e às autarquias que “tomem medidas de acalmia de tráfego nas zonas urbanas: lombas, velocidade limitada a 30 km/h”, que “fiscalizem os excessos de velocidade tão constantes em Lisboa e noutras cidades, e que são de alguma forma socialmente aceites” e que “repensem o perfil de ‘auto-estrada’ desta avenida (da índia) e de outras com características idênticas nas nossas cidades”.

Os organizadores planeiam ocupar a avenida da Índia durante cerca de 30 minutos e durante 20 minutos será pedido silêncio, numa homenagem a Patrizia e a todas as vítimas de atropelamento. “Pelas 11h15 iremos deslocar-nos ordeiramente desde a Rua dos Cordoeiros a Pedrouços até ao sítio onde será feita a homenagem, e o trânsito será cortado – este processo irá contar com o apoio da Polícia, que foi contactada para o efeito”.

Num post no Facebook de uma amiga da ciclista que morreu, é explicado que a mulher, que nasceu em Itália e vivia em Portugal há 14 anos, “estava a dar uma volta de bicicleta com um amigo, quando um condutor idoso ficou encadeado pelo sol, não a viu, e numa fração de segundo a tragédia aconteceu”. A vítima ainda foi transportada para o hospital de São José em estado muito grave, mas acabou por morrer no próprio dia.”

Fonte: https://multinews.sapo.pt/mobilidade/patrizia-estava-gravida-e-morreu-a-andar-de-bicicleta-em-lisboa-ciclistas-juntam-se-em-vigilia-no-sabado/

Eu não queria, não queria mesmo nada estar a repetir-me…

Não é apenas por ser pai de filho ciclista que bato na mesma tecla. É como cidadão que diariamente se move a pedais e que estremece perante as mortes de quem livremente circula de bicicleta. Todas as mortes, desafortunadamente demasiadas, deixam-me triste e apreensivo.

Embora as regras de trânsito tenham sido (pouco) reformuladas na protecção que é dada aos utilizadores vulneráveis da estrada, é um pressuposto falso se repetir que o automobilista deve ter a supremacia na via pública porque o veículo que conduz é mais rápido. Não é o tipo de veículo que regula a ordem rodoviária. As leis de trânsito deverão ser ponderadas para controlar o veículo motorizado, para criar ordem e cooperação entre os diferentes utilizadores da estrada. A maioria dos acidentes rodoviários é causada pelo desrespeito constante das regras de trânsito, negligência e desatenção de quem conduz. Independentemente do tipo de veículo, o desrespeito individual nas estradas tem correspondência na maior probabilidade de ocorrerem acidentes, o que responsabiliza também todos os que partilham a via pública, como os peões e os ciclistas.

Com o aumento das bicicletas nas ruas e estradas, temos de intensificar a discussão, no bom sentido, de como as leis de trânsito deverão ser cumpridas. Mas a quantidade de bicicletas a circular não é a questão. A questão essencial do problema é como educar os automobilistas. Os números assombrosos dos acidentes rodoviários, atropelamentos e das vítimas mortais resultantes são assustadores. A revisão de algumas das regras da estrada (CdE de Janeiro de 2014) visou proteger os utentes mais vulneráveis. O CdE deu mais direitos aos ciclistas mas veio também responsabilizá-los na sua conduta e no respeito das regras. Por outro lado, ao estabelecer a regulamentação do cumprimento da distância mínima de 1,5m que deve ser dado nas ultrapassagens aos ciclistas, por exemplo, pede-se maior responsabilidade ao condutor. No dever implícito do cumprimento dos limites de velocidade, no redobrar da atenção e cuidados na partilha da via com os restantes utilizadores. Precisamos de bicicletas por todas as razões e pelo valor que elas nos oferecem. Precisamos promover e incentivar o uso da bicicleta como modo de transporte limpo, eficaz e seguro, que se sobreponha à contínua prevalência do sacrossanto automóvel. Precisamos planear a cidade ao transporte suave e pôr as pessoas a pedalar. Sem medos.

Como ciclista, um dos meus objectivos ao pedalar é também demonstrar que a bicicleta é um dos modos mais eficazes e alternativos no combate à pandemia “covidiana”. Utilizar este meio fantástico de divulgação para promover a segurança e a cooperação entre os carros e as bicicletas. Devemos ter a noção que a cooperação é necessária, e eu acredito que é possível. A partilha, segura e eficiente da estrada é muito mais provável de acontecer quando ambos seguem os mesmos regulamentos. Não é suposto tentarem nos convencer que são os ciclistas o foco do perigo. Ouço e leio comentários que alguns dos ciclistas têm comportamentos “incumpridores” das regras. O que acontece muitas vezes é que esses ciclistas estão apenas a tentar salvar o coiro. Todos somos testemunhas diárias que alguns automobilistas são impacientes, agressivos e com pouca consideração para qualquer tipo que vá à sua frente e o faça abrandar. O aborreça! Alguns, tendenciosos contra os ciclistas, são encorajados a acreditar que as bicicletas pertencem a uma terceira categoria nas ruas. Gabam-se com um sinistro orgulho que desrespeitam deliberadamente as regras e incentivam um comportamento irresponsável, infringindo a lei. Para eles as bicicletas são intrusas e não deveriam estar ali, a partilhar a rua. Se houvesse mais respeito, ao peão, ao ciclista e ao Código da Estrada, estou convencido que não haveriam estes acidentes.

Podia ser eu, podias ser tu. Nem mais uma vítima” é o mote da vigília marcada para dia 3 de julho junto ao local do acidente. Em preparação está também uma petição para levar o tema ao Parlamento.

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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2 respostas a Patri

  1. Concordo contigo a 100%.
    Nesta história deste acidente, não se percebe como é que alguém vai por ali de carro num Sábado de manhã, em que há pouco trânsito e mesmo assim abalroa uma ciclista, porque estava encadeado pelo Sol. A única coisa que poderá desculpar o homem é que o acidente dá-se logo após passar por baixo de um viaduto e o sol o terá apanhado de surpresa.
    Pela marca no vidro, a Patrícia deve batido com a cabeça. Tentei saber se levava capacete mas ninguém me soube dizer e até acharam a pergunta ofensiva. A verdade é que, neste tipo de embate, usar capacete pode fazer a diferença.

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  2. paulofski diz:

    Sobre as especificidades deste “acidente” não saberei responder. Desconheço o local, a hora da fatalidade, a velocidade do automóvel… Muitas questões e dúvidas me ocorrem. Já publiquei sobre a temática do encadeamento, aqui: https://nabicicleta.com/2017/11/13/circular-por-ai-a-jogar-a-cabra-cega-2/.
    A questão de ter ou não capacete também me coloca dúvidas. Pelos danos no carro é um embate violento em que a vítima é projetada de forma súbita contra o vidro da viatura, sem qualquer tipo de defesa possível.

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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