uma questão de mentalidade

A cada dia que passa, quando saio a pedalar nas ruas do Porto e arredores, dou conta que o número de ciclistas com que me cruzo aumenta a cada pedalada. O contraponto disso, a diminuição de tráfego, é que já não se vê assim tanto! Confesso que nem sempre devolvo com um sorriso os insultos que os automobilistas me enviam. É verdade que a bicicleta me dá liberdade mas não toda a que preciso. Não pretendo defender o mau comportamento do ciclista para denunciar a comunidade de automobilistas intolerantes. Eu, como muitos outros, faço da bicicleta o meu estilo de vida, não apenas um exercício. Este  argumento do xôr presidente dos popós de Portugal não pega e é um argumento falso. É claro que se podem melhorar e adaptar as regras de segurança e de prioridade, e considerar que a deslocação diária de bicicletas nas ruas e estradas nacionais é uma realidade. Existem várias opiniões que se encaixam na prática desse senhor, mas para quem tem de conviver no trânsito muitos comportamentos errados transformam o mais pacato cidadão (apeado ou num selim) em tudo menos num pacifista. Existem muitos estilos de condução com que temos de contar, o que pode levar a algumas das imprevisibilidades dos peões e ciclistas. Num interesse de trazer esse assunto para tema de conversa, eu coloquei no papel a minha própria abordagem como viajante regular de bicicleta, em determinadas situações, e também, porque a minha abordagem ao ciclismo é um pouco diferente da opinião de outras perspectivas que vou testemunhando.

Qualquer “ciclismo agressivo” da minha parte é o resultado de alguma condução agressiva e imprudente que acontece ao meu redor. Eu não utilizaria uma faixa de rodagem e uma boa quantidade de espaço para passar entre os carros se não soubesse que teria as mínimas condições de segurança. Se a minha imprevisibilidade em cima de uma bicicleta faz temer alguém basta diminuir o ritmo e fazer com que prestem mais atenção em mim. Eu tenho todo o direito de estar ali, usando o meu meio de transporte e me divertindo, e não deveria ter de colocar a armadura de cada vez que pedale pelas ruas. Todos os dias assisto a condutores acomodados ao seu ar condicionado, homens e mulheres de todas as idades tendo o seu momento de cidadania com o dedo na buzina e o pé no acelerador. Valentes destemidos, a emitir gazes, ouvir música e a falar ao telefone. Mesmo um ciclista com as coxas grossas de um sprinter não pode superar as leis da física. São as leis de Newton que regem o movimento de um veículo de propulsão humana, superando a lei vigente do código de estrada. Uma aceleração dos pedais exige sempre esforço físico e algum ímpeto. A gravidade é uma coisa difícil de superar em cima de uma bicicleta e para evitar uma escalada punitiva eu vou pelo caminho mais longo. Mesmo se a colina constituir ameaça eu posso-a dominar, tenho esse direito de escolha.

Por vezes eu gosto de pedalar rápido, com confiança. Final de tarde ou de semana para mim costuma ser sinónimo de longas pedaladas. Pegar na bicicleta de estrada e rodar alguns quilómetros, com uma música no ouvido e um trajecto quase nunca previsto, são momentos em que me desligo do mundo e aproveito para colocar o pensamento em ordem, quase como num ritual de meditação. Na maior parte das vezes costumo rodar sozinho e sigo à risca as regras de segurança e sobrevivência, capacete, óculos, câmara suplente, a preocupação constante em rodar sempre encostado à direita, alerta para todos os veículos e peões ao meu redor. Com uma massa muito menor comparado a um carro, cada tampa de saneamento e buracos na estrada tem o potencial para arruinar o dia de um ciclista, por isso é conveniente tomar precauções a fim de evitar esses perigos. Apesar de carros e bicicletas habitarem num ambiente similar, cada qual requer uma forma diferente de utilização. Devemos ser capazes de conviver em conjunto e isso significa mover-se no mesmo caminho da partilha.

Tenho que admitir que demorou algum tempo para chegar ao ponto de pedalar com confiança, como eu faço nesta cidade. Devido à minha avaliação do estado actual da cultura da bicicleta (e cultura da estrada como um todo), devemos usar do direito que nos assiste em utilizar e partilhar as ruas com os carros, sem ficar com raiva dos seus donos e vice-versa. As bicicletas são veículos de pleno direito nas ruas e nas estradas. Vamos continuar a fazer da cultura da bicicleta o melhor dos mundos, e se mantivermos a paciência, respeito e a previsibilidade do nosso comportamento, ajudamos a tornar as estradas mais seguras. Hoje, no final do dia, em muitos locais do mundo, as massas reunirão as suas bicicletas e transformarão as cidades em algo surpreendente. Um pouco de paciência, civilidade e compaixão poderia fazer muito para manter todos seguros e felizes nas ruas e estrada desta terra.

Espero que esta conversa toda tenha proporcionado alguma inspiração nas mentes de outros companheiros de viagem e que um dia decidam, porque não, trocar a condução pela pedalada.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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