A proporção de bicicletas que possuímos é, como todos sabemos, N + 1, onde N é o número de bicicletas que temos e o +1 é aquela que sonhamos vir a ter. A simples troca de bicla não se aplica aqui.
Esta ânsia de encontrar uma boa justificação para ter mais uma bicicleta é evidente na mente da maioria dos ciclistas.
Longe vão os dias quando uma bicicleta servia para todas as ocasiões. Usada e abusada, no processso de aprendizagem, nas voltinhas ao bairro com os amigos, compartilhada entre os irmãos, passada de pais para filhos.
Hoje em dia o mercado é cada vez mais variado e as bicicletas são mais especializadas, criadas de acordo com algo mais específico e que supostamente necessitamos. Agora não é tanto o caso de nos adaptarmos a elas, mas escolher a “máquina” que melhor se adequa à necessidade do utilizador.
Há uma bicicleta certa para cada função, seja para um trilho de cascalho, estradão enlameado, para utilização urbana ou rodar por longas horas em alcatrão lisinho. A bicicleta é escolhida especificamente para dar o melhor rendimento ao exercício que desejamos, à segurança, ao ritmo e finalidade da pedalada.
As marcas e designers vêm nisto do N + 1 uma boa razão para manter activas as necessidades e sobretudo os caprichos individuais. É um desafio permanente de evolução tecnológica, que acontece bem na frente dos nossos olhos e que estimula querer o mais sofisticado. O mercado faz o seu papel no incentivo para o “upgrade”, reforçando o desejo de expandirmos horizontes e tentarmos algo diferente.

“Qual será a tua próxima bicicleta?” É quase certo que a resposta esperada é “o último modelo”, mas uma coisa é o que queremos e outra é o que podemos ter. O factor económico é preponderante e na mente do pretendente, para fazer novo investimento só precisa se certificar junto da sua “cara metade”. Ou então não, e parte destemido para o elemento surpresa. “Querida…”
No “parque velocipédico” lá de casa tenho uma Del Sol LXi comprada em 2003 na ETIEL, aka Ciclo Coimbrões. De acordo com as especificações da minha “cara metade”, esta bicla de alumínio, tipo beach cruiser, fê-la voltar ao selim e durante alguns anos a acompanhar-me em passeios à beira-mar, até que um tal de síndrome vertiginoso apareceu e obrigou-a a pôr termo às pedaladas.
Ficou guardada, sendo oportunamente adoptada pelo herdeiro e que o ajudou a fortalecer tanto o seu crescimento bem como a desenvoltura das suas pedaladas recreativas / escolares. Entretanto o rapaz botou os olhinhos em algo mais cross e mais trail, e a velha bina voltou para o banco de suplentes.
A Maria Del Sol é uma ótima bicicleta e fui incapaz de me desfazer dela. Aproveitei as suas potencialidades para a tornar numa espécie de rain cruiser, sobretudo para ser usada nas minhas pedaladas “commutianas” diluvianas. Com pneus mais largos e guarda-lamas à maneira, um resistente porta-couves a apoiar um volumoso par de alforges, inevitavelmente ficou muito mais pesada, mas a lentidão da pedalada nunca me desencorajou a investir nela, sobretudo em calços de travão.
Depois de vários anos e quilómetros de bons serviços estava a pedir nova manutenção geral. A idade, a dela e a minha, começavam a pesar, e assim que me deparei com este modelo “Roadlite CF8” da Canyon, achei que seria uma boa oportunidade para a Maria Del Sol passar à reforma.

As dúvidas em comprar uma bicicleta via online eram bastantes, no entanto foram sendo afastadas com a ajuda da competente assistência de comunicação com a marca, bem como no processo de compra e posterior envio e preparação da bicicleta.
Especialmente estimulado pelo preço promocional, pelas características híbridas desta fitness bike, depois de muito pesquisar e matutar mandei-a vir, sem sequer a ter experimentado. Segundo os critérios da marca, estando eu na fronteira de tamanhos entre um XS e um S, veio o XS, não só porque era o único tamanho disponível, mas no que diz respeito ao quadro de bicicleta, o mais pequeno torna-se sempre mais fácil de configurar para o nosso corpo acomodar.
Assim que chegou o caixote, a desembalei e montei, permiti que fosse o herdeiro a dar-lhe os primeiros giros dos pedais. Muitos minutos depois o Rafa lá voltou e o seu entusiasmo era por demais evidente: “Pai, posso ficar com ela?” Eh pá!… Parece que acertei nisto!
Não sabia bem o que esperar quando, pela primeira vez, passei a perna sobre a esta pequena máquina. Pensada para uma utilização sobretudo urbana, para circular em todas as condições climatéricas, a Roadlite CF8 é, ao fim e ao cabo, uma bicicleta de estrada, leve e rápida que, por acaso, tem um guiador plano em vez do dropbar tradicional. A geometria do esbelto quadro e dos periféricos em carbono, fornecem um excelente comportamento e o ajuste que se espera de uma “estradeira” de alto desempenho.

O prato único de 46 dentes é suficiente e competente na transmissão de potência ao SRAM NX Eagle. A simplicidade mecânica do escalonamento das 12 velocidades, do 11 aos 50 e vice-versa, é bastante rápido e suave. Com facilidade se trocam as velocidades, não comprometendo a eficácia e o desempenho em relação a uma transmissão tradicional, o que oferece maior amplitude de andamentos, especialmente para ajudar as pernas nas subidas mais íngremes.
Os travões de disco eram uma novidade para mim. Não sendo topo de gama, são hidráulicos, dando-me a garantia e confiança necessária que exercem cabalmente a sua função, especialmente nas pedaladas à chuva. As rodas 650b que a Canyon equipou neste modelo, tornam esta bicicleta ainda mais manobrável e eficiente. Os pneus tubeless de 30mm, G-One Speed da Schwalbe, são excelentes para uma pedalada eficaz na estrada, confortável no paralelo, sem sacrificar a tracção em estradões de terra e gravilha. Os originais guarda-lamas para o inverno também vieram e que nela serão instalados no devido tempo.
O guiador plano acrescenta um nível de conforto e versatilidade para as pedaladas urbanas que é difícil de encontrar numa bicicleta de estrada convencional. A posição de condução facilita o equilíbrio e desempenho sem sacrificar a velocidade. A estabilidade e a manobrabilidade, tornam a Roadlite bastante versátil nas deslocações diárias, na disputa com o trânsito na hora de ponta, já para não falar da simples alegria de percorrer estradas rurais tranquilas ou caminhos de cabras pela Natureza.
Desde há coisa de um mês aos comandos desta minha ultima aquisição, só agora faço a sua apresentação e o relatório de boas vindas porque, para além das rotineiras voltas diárias pela cidade e arredores, esperei para fazer um longo e completo test ride à Maneirinha, como lhe chamo.

No passado feriado acompanhei um grupo de amigos em parte dos caminhos de Santiago pela costa portuguesa, para depois fazer o consequente regresso por asfaltadas estradas interiores. Esta voltinha proporcionou fazer uma completa e exigente rodagem em diferentes tipos de terreno, numa distância considerável. Resumidamente, a bicicleta teve nota positiva com distinção.
A direção rápida e estável torna mais agradável percorrer sinuosas estradas rurais e contornar curvas apertadas, bem como nos trilhos de gravilha e areia. Pedalar com uma pressão pneumática mais baixa permite receber todo o conforto e segurança dos pneus, seja no paralelo mais manhoso, seja no fofinho asfalto. Aprecei bastante a leveza do conjunto, especialmente quando fui obrigado a carrega-la em ombros pela praia. Nunca me imaginei subir com desenvoltura a ingreme e agressiva Rua do Ferraz e a resposta rápida à força nos pedais foi brutal. Também apreciei o guiador plano e a posição um pouco mais vertical que desfruto aos comandos da bina, o que ajuda a gerir e melhorar a postura, tornando mais fácil manter-me atento ao trânsito à minha volta, sobretudo quando cruzamos alguns centros urbanos.
O selim é definitivamente o ponto fraco da bicicleta. Sofrível para os commutes curtos, é absolutamente desconfortável para o rabo suportar as longas horas a pedal. Valeu-me a carneira dos calções! Este é porventura o único componente que definitivamente será substituído num futuro próximo.
Concluindo. Gosto bastante da versatilidade da Maneirinha e tenho a certeza que foi uma excelente aquisição para o parque velocipédico lá de casa. Embora não pense trocar nenhuma das outras minhas beldades pedaláveis, Sua Alteza, a gOrka, a bamBina, por uma bicicleta de plástico carbono, que não é uma coisa nem outra, mas tudo numa bicla só, é fácil perceber a afeição que ganhei por esta biclazinha.

Maneirinha, uma bicla à maneira











