bonne route…

No momento em que sair este postal, 12 audazes cilotugas (10 da Associação Randonneurs de Portugal)  estarão já a dar ao pedal pelas curvas e contracurvas, subidas e descidas, das estradas francesas na mítica Paris-Brest-Paris.

ciclotugas no PBP 2015

O depart do Paris-Brest-Paris (PBP) foi dado ontem, 16 de Agosto de 2015. Pela 22ª vez (18ª edição sob a batuta do Audax Club Parisien, ACP, sem profissionais à mistura), cerca de 5.000 homens e mulheres de todo o mundo calcaram o pedal e deram ontem início à aventura no velódromo de Saint-Quentin-en-Yvelines em Paris, no rasto das rodas dos pioneiros. Todos eles tiveram anteriormente de completar passeios de 200, 300, 400 e 600 kms. Todos eles pedalam em direcção a Brest, uma cidade na ponta ocidental da Bretanha, todos eles darão a volta e regressarão ao ponto de partida a fim de completar o brevet, como é conhecido, o passeio de bicicletas mais famoso do mundo. Uns singelos 1,200 e picos km’s num tempo máximo de 90 horas.

PBP

Desde a 1ª aventura em 1891 que muita coisa mudou. As bicicletas, as estradas, o avanço tecnológico, mas o espírito, a ousadia, a resistência destes loucos aventureiros e a versatilidade da bicicleta, qualquer que ela seja, manteve-se sempre presente. À época, o jornalista e inveterado ciclista Pierre Giffard reconheceu potencial em tão novel criação e viu ali uma demonstração impressionante do desempenho e do alcance do homem. Deve-se ter em mente que a bicicleta tinha acabado de ser inventada, na forma como a conhecemos actualmente. Giffard formulou então a ideia de uma competição, no uso de uma bicicleta, ir de Paris com destino a Brest e voltar a Paris. O PBP não seria somente uma corrida, mas principalmente uma competição de superioridade, habilidade e resistência. Os médicos da época eram de acordo em que isso não seria possível. Muitos outros condenavam a ideia e achavam que era pura loucura. Poderia um homem realizar apenas por meio da sua força muscular tal acto heróico?! Apesar dessas incertezas e vozes do contra, o PBP começou com muitos aventureiros, exceptuando os estrangeiros e as mulheres.

Le Petit Journal

De modo que, em 6 de Setembro de 1891, 207 ciclistas profissionais e amadores apresentaram-se à partida em Paris montados nas suas loucas máquinas voadoras, das quais constam 10 triciclos, 2 tandems e um monociclo. Em relação ao número de Penny-farthins, não obtive troco! Curiosamente, um dos temas mais ferozmente debatidos à época, havia sido a questão de qual o melhor tipo de pneu a utilizar. Apenas dois anos antes, os irmãos Michelin tinham inventado os pneus e as câmaras-de-ar correspondentes. Para que conste, e porque dos heróis reza a história, Charles Terront, apoiado pela Michelin, venceu com o tempo de 71h35, sem pregar olho! Já o segundo classificado Jiel-Lavel usou os tradicionais pneus de borracha maciça e cortou a meta com mais de 8 horas. Um total de 99 ciclistas cruzaram a linha de chegada e a maioria levou vários dias a completar o percurso porque fizeram várias pausas durante a noite. Pelo caminho só tiveram de gerir o cansaço, reparar as avarias e regressar num prazo de 10 dias.

Terrot

A vitória de Terront foi considerado um exemplo impressionante do tamanho do ser humano e a corrida teve um enorme impacto no público. Giffard encheu durante meses as páginas do Le Petit Journal com as façanhas do seu evento. Escreveu, entre outras coisas: “Pela primeira vez, vimos uma nova forma de viajar, uma nova aventura, uma nova perspectiva de prazer. Estes ciclistas pedalaram por 10 dias, em média 120 km por dia, e ainda chegaram frescos e saudáveis…”

PBP percurso

Devido à natureza árdua da corrida, à distância tão grande e às dificuldades dos profissionais em gerir os treinos e participações em outras provas de estrada, como o Tour de France surgido em 1903, o PBP só viria a ser repetido uma década depois, em 1901, e a cada 10 anos, até 1931. Em breve o Tour de France viria a ser considerada a corrida de bicicletas mais importante e viria a realizar-se anualmente, mas foi inspirada em última análise pelo sucesso e fama do lendário Paris – Brest – Paris.

 Alguns factos curiosos podem ser consultados aqui.

Uma das coisas mais notáveis do ciclismo é o quão pouco mudou. Ok, as bicicletas são mais leves, o vestuário mais confortável, e não há tantos bigodes no pelotão, mas um certo espírito de aventura perdura de quatro em quatro anos num canto do norte da França, onde será para sempre lembrado o esforço e o espírito dos primeiros dias, das bicicletas de aço e das rodas fixas. Se por um acaso Charles Terront, o primeiro vencedor do PBP, fosse transportado através do tempo para 2015, certamente seria capaz de rivalizar muito rapidamente com Froome e com Quintana. Com uma destas biclas modernas xpto provavelmente seria muito competitivo também!

onion seller Mr Buck

Agora o Paris-Brest-Paris ocorre a cada quatro anos. O que tem de especial o PBP é a atmosfera ao longo do extenso percurso e o apoio dos moradores locais. Em muitas vilas os habitantes estão dia e noite com mesas postas, oferecendo água, café e biscoitos. Aqui e ali ouve-se “Bravo!” e vêm-se cartazes com palavras de incentivo aos valorosos ciclistas. São todos amadores do ciclismo e cada um vai abordar a tarefa com a sua pertinaz determinação. Durante a viagem vão passar por aprazíveis estradas, cruzar belas aldeias, registar a sua passagem nos postos de controle, sentar-se à mesa para alimentar o organismo, descansar e dormir por algumas poucas horas, nos pontos de controle ou onde quer que o possam fazer. A sua resistência física e mental será testada. Sabem que terão de enfrentar imensas dificuldades, o clima imprevisível e as noites escuras e tenebrosas, sendo o prémio por tão brava superação o prazer de pedalar e um sentimento de realização por ter concluído o desafio, chegar a tempo a Paris.

Passeie com eles e junte-se ao desafio, deseje-lhes “Bonne Route” e acompanhe estes nossos amigos no Paris-Brest-Paris durante os 1.200 e tal quilómetros de pedalada.

Para as últimas informações detalhadas e, possivelmente, recomendamos para visitar o Clube Audax Parisien (ACP). Aqui pode fazer o download do panfleto oficial de 2015.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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Uma resposta a bonne route…

  1. paulofski diz:

    PBP concluído. Todos chegaram, caras contentes e pernas quentes. Em 2019 haverá outro

    Gostar

apenas pedalar ao nosso ritmo.

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