textos de Marcos Paulo Schlickmann [21] LUTI (2): Enquadramento histórico

Os usos, ocupações do solo e os transportes interagem e se moldam desde os primeiros assentamentos urbanos.

No início da humanidade, atividades humanas eram maioritariamente feitas em casa: moradia, trabalho, lazer e estudo aconteciam no “ambiente familiar rural”. Com a forte urbanização causada pela divisão espacial e especialização das atividades humanas, a necessidade de viagem e transporte de produtos surgiu1. Cidades começaram a tomar forma de acordo com a localização de suas atividades e de suas conexões de transporte. Três grandes padrões de interação uso do solo e transporte são facilmente identificados durante os últimos séculos. Podemos nomeá-los como “A Cidade Pedestre”, “A Cidade do Transporte Público” e “A Cidade Automóvel2.

O padrão da Cidade Pedestre predominou desde o início da urbanização da humanidade, com seu auge na Idade Média, até o fim da Revolução Industrial. O tamanho das cidades não excedia distâncias que podiam ser percorridas a pé ou de bicicleta, com dimensões das ruas e tipo dos pavimentos projetados para no máximo as necessidades dos bondes/elétricos a cavalo3. A Cidade Pedestre era caracterizada por alta densidade, uso misto e uma rede viária de estrutura orgânica, não planeada. Este tipo de cidade constitui virtualmente todos os centros históricos Europeus e Árabes, com alguns deles ainda preservados como parte de uma cidade maior ou área metropolitana que se formou à volta. Na Cidade Pedestre2 todos os destinos podem ser acessados a pé em meia hora e logo estas cidades dificilmente têm mais de 5 km de raio. Hoje em dia estas cidades (ou centros históricos) precisam contrabalançar o tráfego, estacionamento, os turistas nas suas ruas estreitas e a preservação do ambiente construído.

Brasil: Centro Histórico de Olinda (1535), Salvador (1549), São Luís (1612), Ouro Preto (1711).

Portugal: Várias. O Centro Histórico de Guimarães (1096), Porto (1123), Évora (1166).

No entanto, durante a Revolução Industrial no final do Século XIX e início do Século XX, a densa Cidade Pedestre se tornou num lugar ruim para se viver, onde poluição, corrupção e doenças eram uma constante4. Com o rápido avanço tecnológico nos meios de transporte e principalmente no modo ferroviário, bondes/elétricos, trens/comboios suburbanos e enterrados e também os ônibus/autocarros passaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas, possibilitando-as viver mais longe, num misto de cidade-campo, dando início aos processos de suburbanização que moldaram a expansão das cidades do Século XX4. Começou então a surgir “A Cidade do Transporte Público”.

Estações e linhas de comboio/trem se tornaram pontos de alta acessibilidade onde novos assentamentos urbanos de média densidade e uso misto apareceram, normalmente a distâncias a pé ou de bicicleta das estações2. Este padrão de desenvolvimento está a ser “reinventado” através do movimento “Novo Urbanismo”, com a promoção do desenvolvimento orientado ao transporte público (TOD: Transit Oriented Development) que irei falar num próximo texto.

Brasil: Curitiba, Interior do estado de São Paulo.

Portugal: Algum desenvolvimento ao longo das linhas de Sintra e Cascais.

Mais tarde, com o advento e massificação do automóvel e com o substancial desenvolvimento dos sistemas rodoviários, novas relações uso do solo e transportes aconteceram. O espalhamento urbano junto às saídas das autoestradas, muitas vezes criando novas vilas e cidades, tornou praticamente todos os cantos das cidades e áreas metropolitanas lugares possíveis de se viver ou trabalhar1.

O processo de suburbanização iniciado na “Cidade do Transporte Público” se intensificou durante “A Cidade Automóvel”, as distâncias entre atividades aumentaram e as pessoas começaram a fazer mais e maiores viagens. O padrão “Subúrbio Automóvel”4 de baixas densidades e segregação de usos moldou o crescimento de muitas cidades ocidentais2. Quase todas as cidades australianas, norte e latino americanas tiveram seu pico de crescimento e expansão horizontal durante este período, adotando massivamente estes padrões de usos do solo.

Brasil: Brasília, a verdadeira Cidade Automóvel.

Portugal: Algum desenvolvimento suburbano formado junto às saídas das autoestradas em Lisboa e Porto.

Hoje em dia, a maioria das cidades têm um mix dos 3 tipos acima.

Referências:

1 Wegener, M., and Fürst, F. (1999). Land-Use Transport Interaction: State of the Art – TRANSLAND.

2 Newman, P.W., and Kenworthy, J.R. (1996). The land use—transport connection: An overview. Land Use Policy 13, 1–22.

3 Petersen, R. (2004). Land Use Planning and Urban Transport.

4 Hall, P. (2002). Cities of tomorrow: an intellectual history of urban planning and design in the Twentieth century (Massachusetts: Blackwell).

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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