textos de Marcos Paulo Schlickmann [18] A estigmatização da bicicleta

Neste texto vou escrever sobre duas formas distintas de estigmatização da bicicleta como meio de transporte urbano:

  1. A primeira se refere ao comportamento dos jornalistas conservadores que veem o ciclista como minoria de classe média alta que não tem por que reclamar, afinal é rico e o pode ter carro. Este comportamento é mais visível no Brasil que em Portugal;
  2. A segunda se refere aos maus técnicos e ao péssimo costume de fazer ciclovia só por fazer. Porque é bonitinho, é “verde” e não para necessariamente aumentar a procura/demanda ou melhorar a oferta existente.

1:

Acho que já está bem entendido pela maioria da população e decisores políticos que o incentivo ao automóvel e ao rodoviarismo, em detrimento dos outros meios de transporte, foi o principal culpado para chegarmos na situação atual de poluição, consumo excessivo de recursos, aquecimento global (ou não), e principalmente na situação de uso não democrático do espaço urbano.

 Mas há cabeças mais duras que pedra, principalmente jornalistas, personalidades públicas e formadores de (des)opinião que têm grande poder mediático e pouco conhecimento técnico, e acabam por influenciar fortemente o pensamento da “massa”. Esses “jênios” insistem em culpar, ou como eu digo no título, estigmatizar os ciclistas, como se eles fossem os culpados pelo caos urbano, devido em muito às suas baixas velocidades e ao “perigo” que provocam (essa é boa: um veículo de 50 quilos coloca em perigo outro de 2 toneladas).

Regar geral a crítica de jornalistas conservadores se baseia no tratamento dos ciclistas como “mais uma minoria” que quer tirar os direitos da maioria. No Brasil a crítica é mais agressiva que em Portugal. Há um verdadeiro exército de jornalistas que mostram ter pouco conhecimento técnico sobre engenharia de tráfego e planeamento de transportes, mas mesmo assim não se fartam de falar baboseiras. Bem provável que acham lindo ou chique pedalar em Amesterdão ou Copenhaga ou mesmo no calçadão de Ipanema (uiui, este é mesmo o suprassumo), mas acham um horror sequer pensar pedalar em São Paulo. Já cansei de ler colunistas chamando ciclistas de fascistas, nazistas, ambientalistas (!?!?), intocáveis (quem são mesmo os intocáveis?), opressores que querem obrigar (sente o drama) todos a andarem de bicicleta.

A seguir alguns exemplos:

Veja aqui uma resposta interessante: http://outrasvias.wordpress.com/2010/08/08/logica-assassina-ou-carta-aberta-a-barbara-gancia/

Vejam aqui uma boa resposta: http://marcogomes.com/blog/2014/luiz-felipe-ponde-erra-feio-ao-falar-sobre-bikes-carros-e-mobilidade-urbana-em-artigo-da-folha/

Estes 3 exemplos (há muitos mais, se juntarmos a estigmatização dos ônibus/autocarros então nem se fala) mostram a superficialidade do debate e a falta de conhecimento técnico desse pessoal. Mas já refleti muito sobre isso e cheguei a seguinte conclusão: Este é o trabalho deles, criar conflito, polêmica, arranjar leitores para seus jornais e revistas. Vai ver que lá no fundo eles não são tão rancorosos.

Para finalizar este primeiro ponto gostaria de deixar uma frase ilustrativa da mobilidade urbana no Brasil:

“Em 2010, o engenheiro de trânsito Horácio Figueira, com base na pesquisa Origem e Destino, estimou que os carros, que levavam 20% das pessoas, ocupavam 80% do espaço das vias. Trata-se, portanto, do fim do tratamento VIP que a minoria das pessoas tinha em São Paulo: ocupando a maioria dos espaços das ruas.”

Fonte: http://super.abril.com.br/blogs/cidadesparapessoas/2013/12/10/resposta-aberta-a-revista-epoca-sao-paulo/

2:

Há uma falta generalizada de bons técnicos, engenheiros, arquitetos e plane(j)adores de infraestrutura ciclável tanto no Brasil quanto em Portugal. Os maus técnicos acabam então por criar infraestruturas que pouco servem às bicicletas e só criam mais conflito entre ciclistas, pedestres, transporte público e automóveis. Simplesmente porque não consultam os atuais ciclistas (que já usam a bicicleta no lixo viário dedicado a eles) ou porque tem medo de questionar os privilégios de uma minoria sobre os demais. Que tipo de democracia é essa? Parece mais um regime tipo “Animal Farm”: Todos são iguais, mas uns são mais iguais que outros. Uma minoria tem mais direitos que a maioria.

Estes projetos, as ciclocoisas como diria meu amigo Miguel Barbot (http://1penoporto.wordpress.com/), não são feitos verdadeiramente para endereçar a necessidade dos atuais ciclistas ou buscar mais ciclistas através da promoção de melhor oferta. Eles normalmente surgem para dar um ar mais “verde” para a cidade ou porque há dinheiro (fundos europeus por exemplo) e resolve-se então meter uma ciclocoisa naquele espacinho que sobrou, depois de se encaixar vias de tráfego e estacionamento.

Alguns exemplos de estigmatização:

Brasil:

Figura 5 - Falta de respeito com pedestres e ciclistas. Fonte: http://deputadoedilsonmoura.blogspot.pt/2014/02/ciclovia-compartilhada-de-zenaldo-e-uma.html

Figura 5 – Falta de respeito com pedestres e ciclistas.
Fonte: http://deputadoedilsonmoura.blogspot.pt/2014/02/ciclovia-compartilhada-de-zenaldo-e-uma.html

 Portugal:

Figura 7 - Um bom lugar para estacionar. Fonte: http://www.biclanoporto.org/?p=2629

Figura 7 – Um bom lugar para estacionar.
Fonte: http://www.biclanoporto.org/?p=2629

Figura 9 - Pedestres e ciclistas partilham a ciclocoisa pois há pouco espaço na rua... Fonte: GoogleEarth

Figura 9 – Pedestres e ciclistas partilham a ciclocoisa pois há pouco espaço na rua…
Fonte: GoogleEarth

A figura anterior mostra bem o pensamento deturpado sobre prioridades: Ciclistas acabam por incomodar pedestres, apesar de haver muito espaço na rua. Tirando as bicicletas da rua consegue-se manter altas velocidades (50km/h) para o tráfego, obrigando medidas de segregação, aumentando assim a insegurança rodoviária.

Uns pensamentos finais:

1. A bicicleta é simples. Qualquer um pode usá-la, tendo ou não conhecimento das leis de trânsito. Acho que não devemos obrigar os ciclistas a terem uma carta de condução, isso é estúpido. Mas em países como os Países Baixos as crianças desde pequenas são confrontadas com o papel da bicicleta como meio de transporte, os perigos do tráfego, as necessidades de iluminação e sinalização para as bicicletas. Porém no Brasil e em Portugal onde a tradição da bicicleta se perdeu e agora está a voltar, é comum ver ciclistas despreparados sem luzes, sobre passeios, na contramão. A falta treinamento para ciclistas, e de certa forma o mau comportamento de alguns ciclistas autoestigmatiza os demais.

2. Um pedido aos políticos: parem de fazer ciclovias sobre passeios e calçadas! Parem de querer que pedestres e ciclistas compartilhem o mesmo corredor! Bicicleta é veículo e deve estar na estrada (caso não exista infraestrutura dedicada). Diminuam a velocidade do tráfego para que a bicicleta possa fazer parte da rua sem estar em perigo.

3. Os adeptos da tecnologia, do crescimento e do maior consumo como sinónimo de progresso vão ter sempre dificuldade em aceitar a bicicleta. Como um veículo com quase 200 anos pode ser a solução dos problemas causados por outro com pouco mais de meio século, porém com aquecimento, conforto e até televisão e internet dentro? Já vi alguns comentários na internet a dizer: Adotar a bicicleta como solução para o caos do transporte urbano seria um retrocesso civilizacional.

4. Sendo um ciclista urbano quase diário, se não fosse não iria publicar meus textos num blogue chamado “Na Bicicleta”, cada vez mais me convenço que a bicicleta é o verdadeiro transporte individual. No sentido de ser um veículo, pois o andar a pé também se enquadra nesta lógica. Individual pois é de total responsabilidade do individuo que o utiliza os seus custos. Diferente dos automóveis e motos, que os custos externos são suportados por todos, a bicicleta não gera custos externos, pelo contrário gera benefícios externos.

Figura 10 - Da Vinci Revisited. Fonte: http://www.andysinger.com/bikesample2.html

Figura 10 – Da Vinci Revisited.
Fonte: http://www.andysinger.com/bikesample2.html

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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Uma resposta a textos de Marcos Paulo Schlickmann [18] A estigmatização da bicicleta

  1. Reblogged this on Matemática em Sobral and commented:
    Bem interessante! retrata uma burrice e não um conservadorismo, se pudermos entender “conservadorismo” como uma ideologia de preservação, no caso o meio ambiente e aí eu sou um conservador, mas estes jornalistas são simplesmente burros porque não entendem que nos encontramos à beira (ou talvez mesmo dentro) dum terrivel buraco ecológico do qual não tem saída e a Humanidade ou a cultura existente desapareceria – alguns humanos talvez escapassem mas reduzidos a uma situação cultura semelhante a da idade da pedra. Não quero isto e sou então um conservador. Mas os que não conseguem entender isto são, mesmo, burros. Nós ciclistas conscientemente ou não sabemos desta crise ecológica que se avizinha.

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