Tem alturas em que até eu acho que andar de bicicleta em alguns locais, tanto na cidade e principalmente nos arredores, talvez seja um pouco arriscado. O trânsito às horas de ponta e automobilistas imprudentes são apenas parte do problema. A outra parte são os próprios caminhos, tortuosos. Vai daí, a onomatopeia dar titulo ao postal.
Depois de um longo e chuvoso inverno, muitas das nossas ruas e estradas parecem um campo minado. Fissuras e buracos gigantescos abundam no pavimento. Não importa o quão cuidadoso seja um ciclista e circule o mais próximo da berma, em algum momento um carro vai estar demasiado perto e ele não terá outra hipótese se não passar com as rodas por cima de um buraco. Com alguma sorte, o ciclista pode ter tempo e espaço para saltar e fugir do buraco sem danos de maior. Mas isso requer boa dose de destreza e sangue frio, o que nem sempre é possível. Grande parte dessas crateras surgem no lado da estrada onde a bicicleta mais vezes circula, à direita da faixa de rodagem. Isso faz com que seja extremamente difícil para o ciclista manter um movimento normal, porque para evitar males maiores tem muitas vezes de se desviar para o centro da via. Alguns automobilistas ficam particularmente furiosos e não conseguem, ou não querem, entender porque ziguezagueiam os ciclistas à sua frente!
Com o passar do tempo, devido ao mau tempo e a obras mal engendradas, o desgaste das vias é natural. As marcações das passadeiras deterioram-se ao ponto da quase invisibilidade. Somente as pessoas que estão familiarizadas com essas ruas têm consciência da presença das marcações das passadeiras. Em algumas ciclovias a tinta e linhas pintadas vão também desaparecendo. Isto levanta uma questão importante sobre a segurança de todos, particularmente de quem as usa. A julgar pela condição de algumas ciclovias, é difícil não concluir que elas foram instaladas para inglês ver, sem o mínimo de estudo, de planeamento adequado e sem a intenção de serem mantidas.
Temos muitas ruas e estradas que estão em péssimas condições. O envelhecimento de algum tipo de pavimentos, como o empedrado, e a extrema ruína de outros, torna muito complicado ao ciclista usar essas vias. A manutenção de estradas não é claramente uma prioridade e que parece estar no topo da lista dos cortes orçamentais. Só quando a deterioração das estradas se tornam demasiado perigosas para os carros é que lá vai uma equipe camarária, os tapa-buracos, remendar o asfalto com compostos de má qualidade, em trabalhos descuidados que deixam irregularidades no piso e o consequente solavanco. Um monte de tempo e de esforço canalizado para nada resolver.
À luz do dia fazemos chicanes, já as pedaladas nocturnas são ofuscadas por sacudidelas súbitas que percorrem o quadro até ao esqueleto. São como um lembrete nas mãos e braços do quão ruim está o estado das nossas ruas e que devemos redobrar cuidados. Estar particularmente atento, usar iluminação capaz de enxergar o pavimento, detectar os buracos atempadamente e não não esquecer as tampas de saneamento desniveladas, tirar o rabo do selim para absorver o choque quando as irregularidades do piso não nos dão alternativas, são conselhos possíveis para evitar cair com as rodas numa cova.
Sobrevivemos num pais que é um enorme buraco, onde não há dinheiro nem para mandar cantar um cego. Reclamar melhor qualidade das estradas, mais e melhores ciclovias, pode ser uma batalha difícil mas é uma luta que vale a pena e que pode ser mais fácil de ganhar quando os automobilistas também beneficiam com isso. Um esforço mútuo de exigência para melhorar a manutenção das estradas, ao mesmo tempo projectar vias que acomodem em segurança a bicicleta, é benéfico. A Primavera chegou definitivamente e com ela muitos ciclistas começam a sair do casulo. Em ritmo laboral ou desportivo, com menos camadas de roupa, as horas adicionais de luz do dia dão um belo colorido às ruas.





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