entre o “seguro morreu de velho” e “quem não arrisca não petisca”

cycling

É difícil ser-se confiante quando se acha que não vai conseguir, que vai correr mal, quando se dá maior importância aos aspectos negativos do que aos positivos. A confiança pode ser medida nas consequências do que o nosso julgamento produz. Algumas pessoas são inerentemente desconfiadas, valorizando o medo e a incerteza, chegando mesmo ao ponto de desencorajar os outros. Boas consequências nos tornam mais confiantes, as más fazem de nós permanentemente desconfiados. Na maioria dos casos o nosso julgamento é o mais acertado, embora haja momentos em que a incerteza, o desconhecido e alguma ingenuidade, se sobrepõe ao verdadeiro risco que assumimos.

É muito relativo o que se tem como risco, e para alguns o ciclismo está na categoria de risco iminente. Na realidade os ciclistas correm certos riscos adjacentes, visíveis e invisíveis, cada vez que vão para a estrada, mas que são nada mais que riscos comuns aos utilizadores da via pública. Surgem na forma de situações ou acções alheias: de automobilistas inconscientes, portas de carro que se abrem a qualquer momento, buracos no piso, detritos espalhados na via, pessoas distraídas que atravessam a rua… daí o argumento divagado que andar de bicicleta é perigoso, o que tanto vale em casa própria como opinião abstracta. Mas, e depois! Se corremos riscos inclusive no sossego das nossas casas, não é por isso que deixamos de prosseguir normalmente as nossas vidas!

Muitos ciclistas não têm o conhecimento formal das regras rodoviárias ou, se têm, insistem em desrespeita-las. Circular nos passeios, em contra-mão, passar nos vermelhos, e contra mim falo, é assumir riscos desnecessários. Para os mais novatos, pedalar pode apenas significar saber como equilibrar uma bicicleta, em acrobacias, andar aos saltos no monte ou descer a toda a velocidade do ponto A ao ponto B. Uma vez na estrada fiam-se no ambiente que os rodeia, querendo acreditar que têm tudo controlado. Por uma questão de segurança, todos os ciclistas devem andar atentos, confiados mas desconfiados. É que confiar em demasia nos outros nunca é bom e um pingo de desconfiança deve ser uma função automática do ciclista. O cálculo do risco deve estar presente e sempre tomar por princípio que, naquele momento, tudo é estranho. Isto não implica que se tenha de assumir um certo risco, por exemplo quando se partilha a via com veículos pesados, ou escolher os percursos mais exigentes mas menos fiáveis, porque muitas vezes não há nem tempo nem informações que permitam determinar o que é confiável. Consequentemente, o melhor é não confiar em ninguém.

Por outro lado o acumulando de quilómetros não nos dará necessariamente um reconhecimento amplo de todos riscos. Esta é uma armadilha frequente para ciclistas experientes que acham que conhecem tudo. Alguma auto-confiança é inerente à experiência e com isso determinados riscos, visíveis ou invisíveis, poderão ser minimizados. Infelizmente, não podemos saber o que não sabemos, podemos apenas buscar conhecimento para nos guiar. Serve para tudo na vida. Não nos podemos iludir em acreditar que nada vai acontecer connosco e que as coisas más só acontecem com os outros. Ponto essencial é ser prudente e não confiar cegamente nas nossas aptidões. A antecipação é um bom truque. Saber que o perigo existe, que pode surgir a qualquer momento, torna-nos mais previdentes.

No campo de jogo, na ciclovia como na rodovia, o que nos diz respeito é sermos assertivos para reduzir a probabilidade de nos envolvermos num acidente. A educação, o respeito, a atenção, são a preparação para seguir com confiança e orientam o ciclista na antecipação de algum “pior cenário”. O ruído de um carro que se aproxima na nossa traseira, uma buzinadela, tanto pode ser um comportamento agressivo iminente para o ciclista, como um condutor que nos avisa e pretenda ultrapassar em segurança. A nossa primeira reacção é desconfiar da acção do condutor e, em simultâneo, demonstrar confiança nas nossas aptidões para agir e reagir. Assumir a nossa posição, indicar o que pretendemos fazer, sem arriscar uma manobra que seja perigosa para nós, só para lhes dar o luxo de nos verem sem confiança. Ter a consciência do perigo iminente é crucial para a sobrevivência e assumir a nossa segurança é uma boa ideia.

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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Uma resposta a entre o “seguro morreu de velho” e “quem não arrisca não petisca”

  1. Um bom artigo, muito bom mesmo que vou até reblogar no meu blog como já tenho feito com outros artigos deste blog.

    Serviu-me pessoalmente, algumas das considerções me cairam como um chapeu na cabeça. Tenho um grave defeito de assumir a bicicleta como uma questão filosófica de sobrevivência da Humanidade, apenas não vale a pena que a Humanidade sobreviva e que eu mesmo seja despedaçado pela rodas da droga de um carro.

    Aproveito para chamar atenção das leitoras do blog para o 2ª edição do Forum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre. Eu infelizmente não vou poder participar para estou fazendo a maior divulgação. O forum merece sua atenção e acontece numa das cidades grandes ainda bonitas aqui da Pindorama, ou Terra de Santa Cruz ou ainda Brasil. Tarcisio

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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