porque “algumas viagens nunca têm fim”

Uma noticia que já não é notícia: “Quinze mortos na primeira semana de Dezembro, 646 desde o início do ano”

A sinistralidade rodoviária é um flagelo dos tempos modernos, com enormes consequências ao nível social e económico. É uma fatalidade que afecta todos os países do mundo e um problema transversal a todas as camadas sociais.

Na origem remota dos transportes, essencialmente os terrestres, está um dos inventos mais revolucionários da história da humanidade: A roda. Esta simples mas engenhosa invenção possibilitou a redução de distâncias, a rentabilização do tempo e a possibilidade de transportar pessoas e bens. Esta descoberta está na génese do surgimento da carroça, da bicicleta, do comboio e do automóvel, do que hoje se designa por “trânsito”. Mas, os veículos a motor, apesar de serem reconhecidamente um instrumento do progresso humano contemporâneo, trouxeram consigo muitos e graves problemas com que os quais as actuais sociedades se debatem. Passando pelos imensos congestionamentos de trânsito, pela enorme quantidade de gases poluentes que são lançados para a atmosfera e degradam perigosamente o meio ambiente, pela poluição sonora, e culminando nos acidentes rodoviários que tantas vidas e recursos desperdiçam, estes são exemplos de grandes transtornos inerentes à utilização do automóvel para os quais as sociedades necessitam de encontrar soluções.

A sinistralidade rodoviária é uma calamidade. Mesmo com uma redução significativa do número de vítimas resultantes de acidentes rodoviários nos recentes anos, continua-se a morrer diariamente nas estradas portuguesas. Muitas outras pessoas que sobrevivem aos acidentes ficam feridas mas em consequência da gravidade dos acidentes não mais poderão voltar a fazer a sua vida normal, nem trabalhar ou contribuir em pleno para o desenvolvimento da sociedade. Este é um fado que toca a todos os utentes do sistema rodoviário, sejam eles condutores, passageiros ou peões. Quer se desloquem a pé, de bicicleta ou em veículo motorizado, para a escola, ou a caminho do trabalho, a caminhar nas ruas ou nas bermas das estradas, em pequenos trajectos ou em viagens longas, são muitos os que nunca mais voltam para casa, deixando para trás famílias e comunidades destroçadas.

São as estradas nacionais (EN) e os arruamentos as vias onde se verificam o maior número de acidentes com vítimas. As auto-estradas (AE e SCUT’s) constituem, comparativamente com as restantes e em termos numéricos, como o tipo de via que oferece condições de segurança muito superiores às EN, ainda que em termos de gravidade dos acidentes já não se possa afirmar o mesmo. A política governamental de portajar as SUCT’s vai “empurrar” muitos condutores para as vias complementares, vias com deficientes estruturas, que atravessam localidades, forçando um maior risco de conflito entre automobilistas, peões, e outros utilizadores dessas vias como são os ciclistas. A maior taxa de sinistralidade verificada dentro e fora das localidades é evidente (1º semestre de 2011 dentro das localidades registaram-se 11643 acidentes com vitimas enquanto fora das localidades se registaram 3968) mas a variação do nº de vítimas mortais não é tão grande como seria de supor (160 contra 158). A mortalidade nas estradas resultante de acidentes em perfil urbano constata-se pelo facto de muitas das nossas povoações serem atravessadas por itinerários principais, muitas das vezes estradas nacionais, onde se verificam enormes volumes de tráfego. Existe a necessidade real de desviar esses itinerários do centro das localidades nomeadamente criando vias alternativas. Nos casos em que tal não seja possível ou enquanto tal não se concretizar devem-se criar condições de segurança para os peões impondo medidas de acalmia do tráfego. Sejam estas ou outras, é premente tomar medidas que levem à redução da sinistralidade grave no interior das localidades. Agora um aparte:

A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) define “Peão” como a “Pessoa” que transita na via pública a pé e em locais sujeitos à legislação rodoviária. Consideram-se ainda peões todas as pessoas que conduzam à mão velocípedes ou ciclomotores de duas rodas sem carro atrelado ou carros de crianças ou de deficientes físicos.Para efeitos de trânsito, nos termos do Código da Estrada, revisto pelo Decreto-Lei nº45/2005, de 23 de Fevereiro, os utilizadores de velocípedes de duas rodas (sem carro lateral!!!) são considerados peões. Isto é os ciclistas são peões para umas coisas mas não para outras! Adiante…

Com a procura crescente da bicicleta como meio de transporte suave e sustentável, teme-se que os acidentes envolvendo ciclistas venham também a aumentar. Comparativamente à sinistralidade com veículos a motor, os dados da sinistralidade envolvendo bicicletas são reduzidos. Segundo estatísticas da ANSR, relatório de Janeiro a Julho de 2011 registaram-se 841 acidentes com ciclistas de que resultaram: 17 vítimas mortais, 63 feridos graves e 761 feridos ligeiros. Embora a principal faixa etária dos utilizadores de bicicleta se situe entre os 18 e os 40 anos, os mais velhos seguidos dos mais novos são as principais vítimas de acidentes, representando quase metade da sinistralidade com velocípedes (841). Entre estas, 119 vítimas tinham menos de 14 anos, 87 entre 15 e 19 anos e 123 tinham mais de 65. De realçar que os distritos com maior registo de acidentes rodoviários e de vitimas são Lisboa e Porto. A conclusão é evidente e rebatida por declarações do presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, José Manuel Caetano, “o principal problema prende-se com o desrespeito dos condutores e a velocidade excessiva a que se circula nas estradas portuguesas.”

Assim, apesar dos evidentes benefícios que a utilização das vias rodoviárias proporciona à sociedade, conclui-se que o preço pago tem sido demasiado alto e os actuais esforços de segurança rodoviária não conseguem debelar a gravidade do problema. Independentemente de se verificar alguma inversão na mortalidade, o impacto dos números é atribuída sobretudo à implementação de um grande leque de medidas de segurança rodoviária. No entanto existe uma outra dimensão do problema onde se terá de continuar a investir: a componente humana. É necessário apostar cada vez mais na educação rodoviária, na mudança de comportamentos ao volante e na educação cívica e de cidadania. O excesso de velocidade e todos os outros comportamentos de risco assumidos pelos condutores, e muitas vezes pelos peões e ciclistas, são também a causa próxima que urge prevenir. Só com uma verdadeira e radical mudança de atitude social colectiva, se poderá diminuir drasticamente a sinistralidade rodoviária.

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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