Amanheço aqui, entre papéis, semi-encerrado num envelope sem coisas lá dentro, com um postal por escrever. Lá, por fora dos vidros, imagino a minha vida. Aqui, imagino-me sempre a tentar, sempre com a mania de vir a ser. Caducado. Uma sensação estranha de nunca ser, de nunca estar. Fotocópia de fotocópia, dobrada em quatro, que circulou por muitas mãos e por muitos olhos. Papel químico dos dias que passam, sempre os mesmos. Numa ideia do que faço disto, procuro partilhar pequenas insignificâncias dos dias, alguém com quem sorrir, de vez em quando. Coisas simples e vulgares que nos tornam cúmplices. Não querer acertar com receio de magoar, a pedir ajuda com os olhos, a desviar a conversa. Quase contar tudo, mesmo os pensamentos mais secretos, mesmo aqueles que coram faces e nos descai o olhar na procura de algo perdido para pontapear e desviar a atenção. Um balão vazio perdido entre papéis. Rasgo o envelope, encho de ar o balão, que foge como um farrapo de nuvem à deriva num pedaço de céu, e rabisco umas letras no postal.
Uma vontade. Ter alguém com quem passear de bicicleta, percorrer todas as ruas e escolher as mais bonitas paragens.
Um sentimento. Na verdade não me sinto adulto.
foto – Henry Cartier-Bresson




![no meu percurso rotineiro pr'o trabalho [1] Velódromo Maria Amélia](https://i0.wp.com/dgtzuqphqg23d.cloudfront.net/-yXBieot6NWX52sp0byCwXot2SoQ1_LPu_1mAwjaeRI-2048x1536.jpg?resize=200%2C200&ssl=1)















