bolhão

A Câmara Municipal do Porto, ou esse senhor que lá manda, quer transformar o Mercado do Bolhão, um dos símbolos da cidade invicta, em mais um centro comercial. O “negócio” implica a demolição do interior do edifício, mantendo apenas a fachada e levando assim ao desaparecimento das bancas de venda tradicionais, das suas vendedeiras, dos seus pregões, dos seus cheiros, dos seus sons e das suas cores. Da verdadeira natureza portuense.

O Bolhão há muito que está em crise e reclama obras urgentes de beneficiação, mas os sucessivos governos municipais não se têm mostrado interessados em rejuvenescer o mercado, criar condições condignas aos seus vendedores e clientes e assim preservar a essência deste património da cidade.

Sábado passado fui lá. Entrei quase sem perceber que pode bem ser a última oportunidade de voltar a sentir o Bolhão tal como é. Velho, humilde, húmido e nosso. Aqueles odores inebriantes logo se entranharam em mim. Observei as rugosas faces de preocupação disfarçadas com aquela alegria e modo atrevido de nos cativar: “quer alguma coisinha, amor?” O pregão solta-se fácil do sorriso da vendedeira, que nos acolhe de mão na cintura e banca carregada de fruta fresca para vender. Sentir o cheiro a alho, ver o peixe “vivinho” na mão das regateiras e as colheres de pau empunhadas na conquista da freguesia. Em nenhum outro local da cidade se sente o coração da gente e o que é realmente ser tripeiro. É triste que alguém prefira o esforço mínimo (e mais rentável) à nobre intenção de guardar o Bolhão para as novas gerações.

Haverão outros promotores interessados em recuperar e preservar as tradições e o património humano. Não entendo que outrora pessoas ilustres contestaram um plano de pormenor e hoje, afogadas num rio que desagua com uma surdez ensurdecedora, não se manifestem desta intenção de destruir, e com isso permitir que outro centro comercial nasça na baixa da cidade, dando mais uma facada no comércio tradicional.

Oh Mercado do Bolhão,
Àgua o deu do chão p’ra fora
E nenhum rio parvalhão
Te há-de arruinar agora.

Dizem que é o progresso
Que é grande evolução
Isto é mas é retrocesso
E cega destruição

Aqui a invicta cidade
Nunca passou tantos perigos
Cuidado! O Rio ‘inda há-de
Vender a torre dos Clérigos

Bolhão, mercado do povo
Dos pregões e vendedeiras!
Não mais um shopping novo
Sem couves, tripas e alheiras

Bolhão das bancas abertas
E dos pregões convincentes
Grandes ganâncias despertas
Aos tais que afiam os dentes

E se eles afiam os dentes
É por causa salafrária
Que lhes põe as mãos tão quentes?
Especulação imobiliária!

Em vez do Bolhão do povo
Na baixa e zona central
Quer a Câmara um centro novo
De lixo multinacional

E em vez das vendedeiras
E das pequenas lojinhas
Serão só ” boutiques” cheias
De mil inúteis merdinhas

Mas cá a gente do burgo
Que se impôs pelo Coliseu
vai é mandar pastar o burro
Do rio p’ra lá de Viseu

E este marco do Porto
Não deixemos destruir
O Bolhão não será morto
Se nos soubermos unir!

Quadras retiradas daqui.

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About paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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11 Responses to bolhão

  1. Desconhecida's avatar liamaral diz:

    >De acordo, o Bolhão não pode acabar!!

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  2. Desconhecida's avatar paulofski diz:

    >Pois não Lili. O Bolhão pertence-nos.Beijo

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  3. Desconhecida's avatar Olá!! diz:

    >Já assinaram a petição????

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  4. Desconhecida's avatar paulofski diz:

    >É mesmo Olá, eu já a assinei. Já me esquecia de referir que quem entender contribuir para esta causa pode assinar a petição aqui.

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  5. Desconhecida's avatar Olá!! diz:

    >isso mesmo P… eu já assinei há umas semanas atrás e a coisa tem crescido… Vamos ver no que dá.Beijinhos

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  6. Desconhecida's avatar Sara diz:

    >O Bolhão é um local mágico, que remete para tempos de infância, anteriores a qualquer hiper-mercado sem textura, luz ou cor! Ps- Paulo, já te respondi no meu espaço. Beijo!

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  7. Desconhecida's avatar paulofski diz:

    >Vou fazendo figas para que dê certo Olá.

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  8. Desconhecida's avatar paulofski diz:

    >É realmente um local mágico Sara.Grato pela visita. Volta sempre.Beijo.

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  9. Desconhecida's avatar Kok diz:

    >Também já assinei a “petiçon”.Deixo abraços para que também unam esta causa!

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  10. Desconhecida's avatar Ka diz:

    >O Poto sem o Bolhão nunca mais será o mesmo!! Será um assassínio o que querem fazer :(Resta-nos passar palavra. Olha estava aqui a pensar e já que se fazem tantas “blogagens colectivas” podíamos fazer uma pelo bolhão, com um logo e o link para se assinar a petição, o que acham?Beijinho Paulo :)ps – já tinha saudades de passear por aqui 😉

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  11. Desconhecida's avatar Xanda diz:

    >Bolhão… que saudade!Lembra-me logo o meu tempo de escola, qdo fui estudar p/ o Porto… ai ai.Já não o visito alguns meses, mas adoro aquele tipico comercio à antiga, o pregão, as flores, os cheiros, não, não vamos deixar o Bolhão desaparecer.

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apenas pedalar ao nosso ritmo.