já diz o povo, “há chuva que seca e sol que refresca”

Este dia estava programado há semanas, verificar in loco o trajecto que desenhei para um possível brevet 200 dos Randonneur Portugal, com saída e chegada ao Porto.

O meeting point no Jardim do Calem, á hora marcada, para além do Miranda, do Pawel e do Jorge, a chuva também marcou presença! Mas onde estava o apetecido dia maravilhoso banhado pelo sol de Julho? Pois… encolhidos, sob uma morrinha “bué da chata”, foi a maneira de se começar a pedalada. Ao longo da manhã, a chuvinha “molha-tolos” deixou estes quatro tolos molhados até aos ossos.

Rumamos ao longo da costa, e um suave, mas desgastante, vento de sul misturado com o ar grosso e húmido não mostrou sinais de aliviar até à nossa investida para o interior. O Jorge seguiu outro rumo, e foi bem para lá da nossa passagem pela engalanada Terra de Santa Maria, e do seu imponente castelo, que a viagem foi, pouco a pouco, ficando mais seca e luminosa.

O objectivo é explorar o território e a fórmula é a certa: estradas sinuosas, a maioria com mau piso, povoações quase desertas, no meio do nada, aromas e testemunhos em busca do prato do dia. Aqui está o segredo do ciclismo, o gosto de ir descobrindo, na pedalada lenta ao ritmo do nosso próprio esforço. Procurar um petisco que possamos saborear, desvendar os segredos que as mães apaixonadas pela sua terra preparam com tanto carinho e dedicação. É verdade, a barriga já dava horas, e quando se pode aliviar o rabo do selim, ouvindo os sinos do início da tarde, é não só um pretexto mas sobretudo um alívio.

Com alguns erros no desenho do percurso, que doravante será coisa para se ir afinando no papel, a tournée prosseguiu calma. As estradas são geralmente tranquilas e sem muito tráfego. A geringonça ia-nos guiando na direcção certa, supostamente, mas o nosso sentido de orientação ia lançando alertas quando se avistavam inesperadas e ingremes rampas que nos apareceram pela frente. E foram algumas.

Agora está sol. Arouca seria o prato seguinte, sem, no entanto, acrescentar a Serra da Freita à sobremesa. O rumo seguiria serpenteando o fundo do vale, palmilhando quilómetros de suaves subidas e descidas, sem qualquer agressividade. O sol polvilhava o seu calor, e para usufruirmos do ar fresco pedalamos de peito aberto, secando a roupa na corda bamba.

Em plena época de romarias, a balburdia dos festejos e os cortes de estrada atrapalham de alguma forma. Abrandamos e espevitamos a curiosidade com o pé no chão. Sair dali resultou em grande desacerto. Consultada a bussola retomei definitivamente o rumo certo e apanhei os compinchas mais à frente, em plena subida ao Monte de Santo Adrião. Se formos devagar pela sombra e sem o frenesim rodoviário, o maior presente que podemos receber é o de poder ver tudo.

Nestas longas e extensas pedaladas, há quem as interprete como um desafio para si próprio, quem percebe a viagem como um mero passeio, parando para conversar sempre que pode, talvez com a desculpa para roubar uma laranja, esperar a malta para reagrupar, tirar mais uma fotografia a paisagens que só precisam de ser admiradas. Só desculpas!

Podemos sentir o cheiro do monte, daquelas flores que crescem espontaneamente nas bermas entre uma estrada esburacada e o mato rasteiro. Nas retas há sempre oportunidade para uma boa conversa, escutando o balido das ovelhas seguido do chilrear dos pássaros. Nas curvas, o tempo de repente fica em silêncio e entra-se num vórtice, girando os pedais em modo automático, com as costas ao vento.

Os atalhos sugeridos pelo planeador de percursos tem por vezes o condão de nos levar a pequenos tesouros escondidos. Nas vielas das aldeias, aquele empedrado que faz a corrente chacoalhar no metal e o selim cada vez mais tormentoso. Cores que logo se uniformizam com as casas. As tradições que não se diluíram ao longo do tempo, que saltam à vista pintando molduras do modo de vida de homens e mulheres do campo.

O céu parece parvo… pardo, todo escurecido e eu me pergunto se vai morrinhar ou chover! É certo que vai. Novelos ásperos de nuvens sombrias e o vento espiam-nos por cima do horizonte. Pedalamos ao vento. subindo por Capela, asfalto que sempre pedalei, descendo para a velha estrada ao longo do rio. Eis a chuva prometida, aborrecida, intrometida, para o final da corrida.

Ao Porto chegamos, encharcados da cabeça aos pés, e aí eu penso que na bicicleta cada vez é diferente. Um dia inteiro a viajar de bicicleta tem uma certa incerteza (!). Primeiro estamos um pouco desconfiados do tempo, depois começamos a descobrir coisas, entretanto desafiamos a escalada e ganhamos. Experimentamos um atalho e perdemos. O calor escaldante e a chuva inclemente. A oportunidade de tentar outro caminho.  E colocar o coração em paz. Mil coisas novas a cada vez.

Foi agradável.

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About paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.