condicionado, engarrafado, um enfado!…

Quem melhor me conhece sabe que sou um ferrenho ciclista mas também pego num volante quando dele necessito, assim numa espécie de condutor de fim-de-semana. Esta dualidade me dá um ponto de vista que não é visto por quem anda exclusivamente de cú tremido. Na bicicleta ando sempre com mil olhos, atento aos automobilistas. Observo-os enquanto pedalo ao lado deles. Analiso o seu comportamento, tento ter alguma noção do que pensam, se estão atentos ou se têm a cabeça noutro lugar. Este é o meu procedimento típico quando estou a pedalar mas é também este o hábito que retenho quando entro no meu carro e por alguns momentos visto a pele de automobilista. Aí, procuro não ver apenas carros mas quem os conduz e os seus ocupantes, especialmente quando estamos a penar num engarrafamento.

cãopiloto

Semana de Natal, fiz-me à estrada para uma viagem. Esperava mais trânsito do que o habitual, mesmo sendo Domingo de manhã, e não é que os meus receios nem demoram muito a ser confirmados! Quando dei por mim lá estava eu, no meio de um engarrafamento, no acesso à auto-estrada e à ponte. Uma fila de carros parados à frente, outros ao meu lado. Ninguém se mexia. Numa rápida espreitadela no espelho uma fileira crescente de carros se formava atrás de mim. A massa moveu-se e eu arranco, lentamente para rodar só um par de metros. O condutor em linha, atrás de mim, deixa espaço e logo uma alma aventureira acelera e surripia-lhe a vaga. Para/arranca. Para/arranca. Naquele momento pensava na sorte que teria caso estivesse na minha bicicleta. Estar parado na fila com um motor em marcha lenta era estranho às minhas experiências de ciclista. Comecei a agitar-me com a minha impaciência. Trocava de estação no rádio para passar o tempo e murmurava contra o tipo que, dois carros à minha frente, deixava os espertos da faixa esquerda entrar na fila. Meia hora naquilo e nem duzentos metros havia rodado. Por um par de vezes o telefone e a sua teleobjectiva quebrou-me a monotonia. Caem umas pingas… mas não eram de chuva! A condutora à minha frente decidiu lavar o pára-brisas e borrifar o meu. Neste ponto, começo a bater o pé de impaciência. Olhei para ela com o meu olhar mais penetrante, sem sucesso. A fila ressuscita mas a tipa não, acha necessário olhar para si mesma no espelho e antes retocar o rouge do que meter a primeira! E lá vai buzinadela para lhe chamar a atenção, antes que lhe chame outra coisa qualquer. Lentamente a fila começa a andar, começo a ter mais espaço e passados cinco minutos, finalmente, já estava na auto-estrada, a entrar na ponte.

Piso molhado, desatenção, velocidade, excesso de confiança, qualquer que tenha sido o ingrediente a receita é sempre a mesma. A experiencia da condução aprende-se com a prática. Um jovem atinge a maioridade e pode se habilitar à condução, fazer parte do trânsito, mas o hábito não faz o monge e como tal também se aprendem os maus hábitos. A convivência na estrada trás à tona todos os nossos defeitos. A intolerância, a arrogância, a falta de civismo, que transforma as pessoas, toma conta das nossas acções onde qualquer motivo irreflectido é rastilho de pavio curto e um ateio para o desastre. O veículo é a extensão do condutor, uma ferramenta que ele ou ela pode usar para intimidar, uma arma para matar. Uma vez na estrada, como peão e ciclista, a minha vida depende da vontade e das acções de terceiros. Dentro dos limites do aço não temos imunidade contra a casualidade, lembrem-se disso.

Olhei de soslaio para os carros acidentados e, com alívio evidente, sigo em frente pela via desimpedida. Um par de quilómetros à frente um outro acidente, três carros enfaixados em cadeia na via de sentido contrário, e o consequente engarrafamento em formação. Depois na minha mente fiz uma nota: na próxima saída para as compras natalícias, não importa onde, não importa com quem, não importa o resto, vou na bicicleta.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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Uma resposta a condicionado, engarrafado, um enfado!…

  1. Republicou isso em Matemática em Sobrale comentado:
    algumas vezes eu também penso que sair no carro pode ser uma saída melhor, sobretudo se estiver chovendo. Caso não esteja chovendo com frequência sinto que errei, que era melhor ter saído de bicicleta.

    Gostar

apenas pedalar ao nosso ritmo.

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