quando aqui o cidadão é bem comportado e segue o conselho, não saindo do seu concelho

Na semana passada, durante a minha habitual pedalada dominical, ao chegar à rotunda do Cais de Gaia fui mandado parar e no imediato abordado por dois polícias. Na minha sincera presunção, disse-lhes que estava ali a dar uma volta de bicicleta e, naquele momento, estava de regresso a casa no concelho vizinho do Porto. Os xôres agentes, na sua diligente função fiscalizadora, relembraram-me que, dessa forma e segundo o decreto governamental em vigor sobre a obrigação de confinamento em que a regra fundamental é ficar em casa, eu estava a violar a restrição de circulação entre concelhos.

“O confinamento obrigatório no domicílio prevê deslocações autorizadas para comprar bens e serviços essenciais, desempenho de atividades profissionais e prática de actividade física e desportiva ao ar livre, na zona de residência e de curta duração.”

Ficamos ali à conversa uns bons minutos e deixaram-me desfiar os meus argumentos: “Que a prática do ciclismo, ao ar livre e de forma individual, é para mim, e para muitas pessoas, a solução ideal para manter a saúde física e mental. Observando as boas práticas de higiene e do distanciamento social, o ciclismo é uma actividade desportiva que ajuda a prevenir a propagação do vírus. Pessoalmente dou importância às longas pedaladas, somar algumas dezenas de quilómetros nas pernas é o tipo de exercício que torna a minha vida melhor e ajuda-me a controlar os meus diabretes.”

Evidentemente que a razão estava do lado dos agentes da autoridade. Eles estavam ali para fazer cumprir a Lei, e a Lei é clara: Impera o dever de recolhimento. Toda e qualquer excepção deve ser usada apenas como a excepcão. Dita o bom senso que todos devemos cumprir o dever de confinamento e não abusar das ditas excepções. Na prática, significa que, por exemplo, não são permitidas atividades físicas de longa duração/quilometragem.

O decreto governamental não especifica em quilómetros a distância que podemos percorrer de bicicleta, mas segundo o agente, se estiver a pedalar num local a mais de 20km’s de casa não há justificação possível. Excepto, claro, os ciclistas profissionais!!! “Mas, xôr agente, como ciclista amador e utilizador regular da bicicleta, pois vou e regresso do trabalho nela todos os dias, a bicla é o meu meio de transporte; Como profissional de saúde, maior e vacinado com as duas doses no bucho, compreendo os riscos inerentes; Como diabético que necessita do ciclismo como de pão para a boca, para regular o açúcar no sangue, são os benefícios das longas pedaladas que procuro obter. Se atravesso o rio Douro para pedalar no vizinho concelho de Gaia, é não só por mero prazer mas é sobretudo para poder passar à porta do meu pai e ver se ele está bem”.

“Ok…” fui desculpado do meu delito e liberado sem levar a multazinha para casa, com um: “Vá lá, pode seguir mas tenha cuidado!”

Assim, depois de uma semana com mais de cento e tal quilómetros pedalados em modo commute, depois de uma manhã de sábado em clara violação das regras, numa incursão a pedais pelo campo e mar dos concelhos de Matosinhos e Vila do Conde, no domingo passado resolvi ser obediente e não colocar as rodas da bicicleta em seara alheia, ou seja, não ir para além dos 41 km² do concelho do Porto.

Burbing é um conceito muito simples: pedalar todas as ruas de um determinado local e compartilhá-las no Strava. Existem maneiras diferentes de abordar a aventura como se limitar a um concelho, uma cidade, um bairro, etc. Grande parte da actividade do ciclismo envolve métricas, potência, velocidade média, cadência, distância, frequência cardíaca, elevação… na verdade o Burbing não tem nada disso e começou como um pequeno contraste com o Everesting. Se o Everesting é extremo, épico, de elite e agora cada vez mais profissional, então o Burbing é divertido, descontraído, aventureiro e acessível a todos. O que não quer dizer que o Burbing seja um passeio fácil. Dependendo do concelho/cidade/bairro escolhido, pode levar um pouco de tempo e até mesmo vários passeios em vários dias. Não precisa de uma bicicleta xpto, não precisa de um kit sofisticado. Basta motivação e alguma dose de paciência e loucura.

Alguns planejam meticulosamente a aventura, usando uma infinidade de dispositivos de rastreamento terrestre, ferramentas de mapeamento, que lhes permite delinear rotas precisas para minimizar o tempo e/ou distância. Percorrer minuciosamente cada via possível, cada estrada, rua e beco da sua cidade, conhecer os sentidos obrigatórios e evitar os proibidos. Pode ser feito de uma vez ou em vários passeios, em várias jornadas.

Outros simplesmente se metem nesta maluqueira de pedalar sem nenhum planeamento ou mapeamento, aproveitando o sol, o domingo sem trânsito, tirando fotos de uma cidade praticamente vazia como companhia.

Perdi-me e perdi algumas ruas, mas tudo bem. Sabia ser impossível haver a possibilidade de passar em todas elas. Decidir fazer isto na hora, pedalar apenas com o meu mapa mental, foi uma maneira extraordinária de encontrar e reencontrar as ruas bonitas, as belezas escondidas da minha cidade, a cidade do Porto, um pequeno concelho confinado ao rio Douro, ao oceano e à Estrada da Circunvalação.

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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