diários de um ciclista urbano numa cidade (quase) fantasma

Antes da pandemia as palavras significavam o que elas significavam. Agora, não. Agora, os dicionários, assim como o glossário que nos entra em casa, têm outro conteúdo, outra incerteza. Curva epidemiológica; Cerca sanitária; Ventilador; Letalidade; Vírus… A tele-escola da covid-19 obriga-nos a re-alfabetizar. A adoptar conceitos que devem ser explicados e entendidos, sobretudo nos tempos extraordinários como os que vivemos.

Re-alfabetizado, portanto, passei a época da Páscoa e a semana seguinte confinado em casa, em evicção – mais uma palavra a acrescentar ao meu vocabulário. Poderia estar feliz, sentindo-me sadio por estar livre, até ver, do vírus. Poderia estar sereno, em paz, por estar em casa, horas infinitas a ler, a ver filmes, me rendendo ao comportamento bovino e passivo do noticiário e das redes sociais.

“As saudades que eu já tinha da minha
alegre casinha tão modesta quanto eu
Meu Deus como é bom morar no rés do
primeiro andar a contar vindo do céu…”

Um edifício entre muitos edifícios. Um apartamento entre muitos apartamentos. Com os ouvidos percebo o que a vizinha de cima calça, com o olfato sei o que os vizinhos da frente estão a cozinhar. Distanciamento social, o que é isso? Nunca estivemos tão longe uns dos outros, tão apartados, tão separados, e, por incrível que pareça, nunca estivemos tão perto. Passamos agora os dias ao vídeo-telefone com a família.

Desde que a normalidade foi cancelada, em qualquer noite deste Abril apocalíptico que durmo mal. Ando ansioso, meio abatido, com receio do futuro. Tenho alternado “dias sim” e “dias não”. Sem o pretexto de sair a pedalar para o trabalho, evitei a bicicleta. Um verdadeiro ansiolítico, que me poderia atenuar estes dias de quarentena privilegiada, não sentei o rabo no selim. Fiquei em casa, numa espécie de penitência. Com o desejo de pedalar para qualquer lugar, o meu estado de espírito estava longe, do lado de fora da janela.

Respeitando o distanciamento social, o sol permitiu-me escapar de mão dada com a minha mais que tudo, em precárias saídas da prisão domiciliária para as compras essenciais. Ir à padaria, ir à mercearia,  “deitar o lixo”. Esticar as pernas e tomar ar, em curtos momentos de liberdade para fazer os tais “passeios higiénicos”. O privilégio de explorar e usufruir a natureza, os maravilhosos jardins que temos à volta de casa.

A primavera não foi avisada e o planeta está a beneficiar do confinamento dos humanos. O novo coronavírus esvaziou ruas, encerrou negócios e interrompeu milhões de vidas, menos o canto dos pássaros. Com a brusca diminuição da presença humana nas ruas, os animais selvagens urbanos têm caminho livre para reivindicar a cidade.

O tempo mudou de tempo, e o novo tempo é de estar desconfiado, de tudo e de todos. O bicho é cruel e democrático, mas o mundo dividido em dois, entre as pessoas que respeitam as normas pelo bem de todos e as que somente pensam nos seus próprios interesses, a paciência está a esgotar-se. Quanto tempo vai demorar, ninguém sabe. Dia após dia fica cada vez mais difícil, mas não é apenas do ponto de vista económico que os comportamentos irracionais emergem. Há o mecanismo cobiçoso que faz com que pessoas que se dispunham a respeitar as regras, ao ver a tendência de maus exemplos desejam violar também esse compromisso É a teimosia do egoísmo, do “se os outros não cooperam, nós também não cooperamos”. O problema é que estas pessoas incumpridoras são as mais perigosas.

Terminado este período de evicção… Ok, para vos poupar o trabalho de pegar num calhamaço Português-Português, “evicção” é, no caso, mais ou menos isto: a redução do ritmo de trabalho com vista à prevenção do profissional de saúde perante acidentes e doenças profissionais.

Prontes, então, dizia eu, terminado este período de evicção, volto finalmente a alapar o rabo na bicicleta. Noto que as ruas já não estão tão desertas, há mais movimento rodoviário, mas as escolas e as lojas permanecem fechadas. Ao início da manhã, estou a chegar ao local de trabalho no centro da cidade. A corrente ecoa em ruas outrora congestionadas. Não estranho pois o tempo de chuva é aliado com as autoridades nestes tempos de confinamento. Só mesmo quem realmente precisa é que pedala nas ruas. “Pareces um maluquinho!”, ouço à chegada!

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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