guerrinhas

Antes de mais um pouco de história:

Em meados do século XIX a freguesia da Foz do Douro é integrada no concelho do Porto. Carreiros, um molhe de grande importância, funcionava como porto alternativo ao do rio Douro, especialmente quando o mar impossibilitava a entrada de barcos na barra. A ligação deste porto de abrigo fazia-se por atalhos e carreiros, o que deu origem a vários topónimos: “Carreiro Mau», “Carreiros” e “Molhe de Carreiros”. À nova estrada rasgada paralela ao mar deu-se a toponímia de Avenida de Carreiros, que mais tarde viria a transformar-se em duas longas e amplas avenidas.

A parte compreendida entre a Rua da Senhora da Luz e o Molhe de Carreiros, com o advento da Republica, passou a designar-se Avenida do Brasil. O troço que seguia para Norte, para Matosinhos, foi já no segundo quartel do século XX melhorada e alargada, tornando-se na espaçosa Avenida de Montevideu, desembocando na Praça de Gonçalves Zarco, a popularmente afama Rotunda do Castelo do Queijo.

Esta frente de mar constitui uma significativa mais-valia para a qualidade de vida, sobretudo dos residentes na área urbana, seja pela zona de lazer proporcionada, seja sobretudo pelos benefícios para a saúde provenientes do ambiente marítimo. Com o melhoramento das vias rodoviárias, os transportes de ligação, de e para o centro da cidade, transforma-se a Foz na primeira estância balnear do Porto. A colónia britânica ajudou a criar a moda de ir a banhos e rapidamente foi imitada por algumas famílias do Porto e arredores com maior disponibilidade económica. Verifica-se a expansão da mancha urbana entre o Castelo da Foz e o Castelo do Queijo, sobretudo com casas apalaçadas e chalés de famílias abastadas.

Em 1865 é concluída a estrada marginal do Douro, da Ribeira até à Foz, o que reduz significativamente o tempo de viagem. Até então os únicos meios de transporte da cidade para a Foz era o barco, o burro ou o carroção, puxado por uma junta de bois. A viagem demorava entre seis a oito horas. Depois da linha do “americano”, um carro sobre carris puxado por cavalos, reduziu em muito o tempo de viagem. Aos poucos a tracção animal é substituída pela tracção a vapor e depois pela electricidade. Com a electrificação da cidade, colocaram-se carris e uma vasta rede de linhas de carros eléctricos ligou o Porto aos concelhos vizinhos. A linha nº 1 do eléctrico passou a servir toda a marginal fluvial e marítima. As modernas Avenida da Boavista e Estrada da Circunvalação chegam ao litoral e tornam-se vias estruturantes para a ligação rodoviária do centro às praias.

O espaço entre as avenidas e o mar transforma-se em espaço público. Dotam-se as praias de equipamentos qualificados. Alargam-se os passeios, abrem-se esplanadas, desenham-se jardins ornamentados com estátuas, fontanários e a famosa Pérgula, dando um outro carácter à frente marítima. Mais e maiores edifícios de habitação são erguidos.

A Foz deixa de ser apenas uma estância balnear para a burguesia portuense, e cada vez mais num local de residência e comércio. Aos poucos vai perdendo a sua escala rural e o ambiente calmo. Aumenta progressivamente o número de habitantes e de visitantes. Os autocarros substituem os eléctricos sendo os carris arrancados dos paralelos. Para os automóveis, quatro amplas faixas de rodagem e baias de estacionamento pintadas no asfalto. A primeira via exclusivamente dedicada às bicicletas da Invicta é rasgada de uma ponta à outra, no passeio. Para os ciclistas, um tapete de cor verde dá um toque hipster moderno à zona pedonal. As avenidas do Brasil e de Montevideu são agora um importante eixo de ligação rodoviário de entrada e saída da cidade.

Findo o “era uma vez” vamos agora à actualidade.

A CMP fez recentemente nova intervenção nas referidas avenidas “com o intuito de beneficiar a faixa de rodagem e passeio poente através da recuperação do estado dos pavimentos e implementação de um novo esquema de mobilidade local, com vista a melhorar a segurança rodoviária e pedonal”.

Oportunamente, aqui fiz o anuncio da obra e expus as minhas dúvidas e perplexidades sobre esta intervenção, tanto na  óptica pessoal como no ciclista urbano que há em mim.

Mas a obra ainda não estava concluída e já estalava a polémica. Os aceleras e incautos azelhas deste país declaravam guerra a Rui Moreira e à CMP. A falta de espaço para os automóveis, a redução de velocidade, 400 mil euros para o lixo, o perigo dos mecos de retenção para os seus frágeis pneumáticos, e agora quem paga os estragos dos carrinhos. E a maldita da ciclovia… Os ciclistas que fiquem no passeio, bradam ainda.

nova ciclovia da Foz

Assistindo a esta guerrina, e depois de testar in loco nas minhas habituais pedaladas do trabalho para casa, até acho que está melhor assim. Para o ciclista/cicloturista/commuter a intervenção facilita a sua mobilidade, permite circular a uma maior velocidade, contribui para a acalmia de tráfego. Claro que existem pontos sensíveis, onde há que redrobar cuidados, como as paragens de autocarro e as passadeiras. Certamente não é aconselhável para que as crianças andem de bicicleta por ali, a aprender ou a passear, mas sempre o poderão fazer no passeio, pois assim a lei o permite.

Se por um lado aumentou o espaço pedonal com a colocação da ciclovia ao nível da faixa de rodagem, o espaço para os carros ficou comprometido. Ok, se por ali o estacionamento em segunda fila é prática frequente, não vejo porque reclamam tanto com o estreitamento das faixas. Creio que seria de todo lógico tornarem estas avenidas zona 30 (limite de velocidade a 30km/h), como se verifica na contígua Rua Coronel Raul Peres. Para mim, esta intervenção só pecou por não se terem lembrado desta ideia com cinco anos: Repor  os carris do eléctrico até Matosinhos. Aí é que seria bonito…

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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