Porto-Fátima-Porto, uma santa volta

Nas minhas pedaladas pós-laborais casualmente encontro o jovem Jacinto  em pedaladas recreativas mais a sua mui querida Branquinha. Bem, a probabilidade de o encontrar a pedalar uma das suas bicicletas no eixo marginal Matosinhos/Freixo são fortes, pois o Jacinto nas suas alegres e bem pedaladas 69 primaveras não está para ficar prostrado no sofá ou num banco de jardim a bater umas cartas.

– Então Jacinto, como vai isso? Esse joelho está melhor?

– Está melhor. O que me mata é estar parado, quando pedalo nem o sinto.

Conversa vai, conversa vem, disse-me o jove que estava a planear nova pedalada a Fátima, no 12 de Maio, para depois regressar de “quimboio”. Logo ali me fiz de convidado a acompanhá-lo. Esta espécie de “bicigrinação”, cumprir os duzentos e poucos quilómetros a pedal entre o Porto e Fátima, já se tornou uma clássica, como tal era mais pelo passeio e pelo convívio. Entretanto, o Manel Couto e o Rui intrometeram-se no plano e elevaram a fasquia para um nível épico.

– Bamos e boltamos? É, ou bai ou racha.

– Autonomia total? Bamos?… E fomos.

O ciclismo de longas distâncias requer apetrechos extras, kit de sobrevivência, vestuário reforçado e pede faróis. O roteiro estava traçado e o desvario teria alguns condimentos saborosos. “Ó pra lá” com a luz do dia e “ó pra cá” sob o céu estrelado. Seriam apenas 18 horas de rabo sentado num selim a rodar as pernocas por mais de 400km. Das 24 horas planeadas para a longa jornada, quatro ou cinco seriam gastas com as bicicletas encostadas a descansar. Foi mais ou menos assim.

Meeting point às 6 da matina. Sob um manto de nuvens suspeitas, quatro animosos amigalhaços encontram-se, tiram a selfie da praxe e dão ao pedal ao longo da margem esquerda do Douro. São Pedro não se fez rogado e à passagem da comitiva pela sua devota Afurada abençoou os convivas com uma valente molha. Refugiados sob o alpendre da esquadra local, ficam a fazer companhia ao polícia de plantão e só meia hora depois retomam difinitivamente a pedalada.

Ainda poucos se aventuravam a colocar o nariz fora de portas e estes bicicgrinos já levavam um bom pré-aquecimento. A manhã estava frescota e húmida e só a espaços o sol aclarava o dia. Esperançados em aproveitar a Nortada, não demorou muito a sentirem a sua infalível pseudo-força. Aquela ventania fria que no verão desalenta os banhistas, é uma benesse para os ciclistas que rumam a sul. Sim, sabe bem quando sopra forte pelas costas, mas é um martírio quando se pedala contra.

– “Ó pra lá” o bento está do nosso lado, “ó pra cá” é que bai ser!, diz o Paulo ao pessoal.

Rumo ao sul, as primeiras horas de pedalada foram cumpridas a bom ritmo. Nota amarga para o manto florestal que desapareceu e para os pinhais sepulcrais de troncos calcinados à espera do golpe final da motoserra. Já a praga do eucalipto renasce espontaneamente das cinzas.

Às tantas o Couto desistiu de dar música à malta e guardou a grafonola chinhoca. O Jacinto seguia ao seu ritmo, dando asas à sua veia poética e ia fazendo as suas reportagens, “Isto é assim”. O Rui mantinha-se introspectivo e focado na estrada. E eu? Eu começava a sentir um certo desconforto no cano de escape, digamos assim. O hemorroidal estava em modo crise!

A estrada nacional 109 não é nada de especial. No seu longo trajecto, de piso nivelado e muito degradado, é enfadonha e agitada q.b.. O motivo de maior interesse é a passagem pelas vilas. A opção da bicicleta como veículo de eleição na estrada é um modo de vida. São velhos e novos, homens e mulheres, que nas suas pasteleiras do século passado desempenham a sua independência, a sua liberdade na mobilidade. Amiúde, passamos por nativos ciclistas onde a bicicleta é sempre um bom tema de conversa…

– E a senhora, também vai a Fátima?

– Ah! Eu, não, eu venho do cemitério.

Parados num semáforo, percebe-se o som de distintivos cliques do desencaixe dos cleats para deixar os Sidi provarem o alcatrão. Um grupeto equipado a rigor e nas suas máquinas velocarbónicas, topam-nos e interagem nas conversas. Assim que cai a luz verde do semáforo, o “Alfa-Pendular” arranca e acelera a toques de urgência, transpirando. O grupeto passa por mim a zunir, em direcção à capital, e um dos prespicazes sprinters tem tempo de ler os dizeres “Randonneurs Portugal” no meu colete laranja, pedindo-me: – Oh pá, manda cumprimentos à Lenita.

Pois precisamente à mesma hora, os meus amigos randonneiros, entre eles a receptora da mensagem, estavam a dar o litro num brevet bem durinho, o Brevet Cávado ao Tâmega 400. A encomenda foi mais tarde entregue na caixa de comentários do FB da nossa heroína, que certamente aplicaria uma carochada de todo o tamanho no pódio mensal da Divisão Velopata, mais propriamente na categoria Jersey Melhor Fêmea Ressabiada, caso fizesse parte de tão restrito e ressabiado clube, p’stá claro.

Na Figueira da Foz, os vaidosos cicloturistas deixam a ponte sobre o Mondego para trás e detêm a pedalada para morfar. Mais ou menos dentro do tempo estimado, esticam as gâmbias debaixo da mesa, dão ao dente e eu dei algum descanso aos glúteos. O Jacinto besunta o joelho direito com uma espécie de betume, pomada analgésica ou lá o que era aquilo:

– Ai se a minha médica sabe disto! Ironizava.

Mas não tardou muito a voltarmos a espalmar o rabo no selim, cada vez mais desconfortável. Ainda intrigados com a conta apresentada, suspeitando que nos haviam metido a unha, pedalávamos agora mais para o interior, aguentando as rajadas de vento lateral. O jovem herói seguia no seu ritmo e, a seu lado, o Paulo maçava-o ainda mais:

– Mais cedo ou mais tarde havemos de lá chegar, ai havemos, havemos.

Depois do desvio habitual na Guia, e depois de um gelado como sobremesa, neste caso como sobreselim, mais à frente depois do cruzamento do Barracão, a estrada outrora esburacada apresenta agora um fofinho tapete negro. Aqui e ali, grupos de peregrinos na berma esquerda que iam aumentando, sendo que num desses encontros resolvo sacar do telemóvel para os enquadrar numa fotografia. Se fosse uma bídio-reportage poderiam escutar a sempre simpática saudação e animado incentivo do Couto.

Nisto, um jipe da Gêénérre surge sorrateiro ao meu lado e o xõr guarda no lugar do morto tem este diálogo comigo:

– Xôr ciclista, não sabe que tem de circular o mais à direita?

– Aããã… Onde! Como! Quem! Mas xôr guarda, estou a circular à direita!

– O xôr está no meio da estrada…

Óbalhamedeuje, vejam lá na foto se estou no meio da estrada?

E no momento em que lhe ia relembrar o nº 3 do artigo 90 do Código da Estrada:

“Os condutores de velocípedes devem transitar pelo lado direito da via de trânsito, conservando das bermas ou passeios uma distância suficiente que permita evitar acidentes” …

– Ainda por cima o xôr ciclista vai de telemóvel na mão…

– Ups!

Aí o xôr ciclista calou-se, meteu a viola no saco, e seguiu viagem.

Batiam as 17 badaladas quando os romeiros alcançaram o prémio de montanha da Serra de Santa Catarina e, satisfeitos, desceram por entre um mar de peregrinos, entre um rio de ciclistas, a ultrapassar uma fila de carros em águas estagnadas.

Chegamos ao Santuário, o “ó pra lá” estava concluído. Não demoramos mais de uma hora para as devidas formalidades, fotos e preparos. Estava uma ventania gelada e quando uma mais afoita rajada nos deita as biclas ao chão, decidiu-se:

– Bamos já para casa.

Reforçada a armadura, o “ó pra cá” estava em acção. Retomou-se a mesma estrada para a descer e entrar na N113, até Leiria. O objectivo seria alcançar a N109 para norte, mas entretanto a N1/IC2 atravessou-se no nosso caminho. A opção é certa, a dúvida é capciosa. Se o arrependimento matasse… Nem sei como saímos dali vivos. O trânsito era infernal e nada os impedia de acelerar. Tal como nós. Quatro ciclistas em fila, encolhidos e assarapantados à espera de encontrar uma placa com os dizeres “BARRACÃO”, para sair daquele turbilhão.

Finalmente escapamos daquela estrada e calcamos alcatrão conhecido, o mesmo que havíamos feito no sentido inverso. Mas algo roncava e não era motorizado. Era o estômago mesmo. Qualquer aroma a comida no ar captada pelas narinas nos impelia os narizes em todas as direcções a espreitar menus. No aconchegado Restaurante Carreira (Carnide) fizemos um repasto à maneira e um brinde à amizade.

Entretanto a noite caiu, o vento amainou e o frio apertava bem. Vesti tudo o que levava, até uns saquinhos de plástico cedidos pela simpática senhora do restaurante eu enfiei nos pés. Passados uns minutos já estavam morninhos. Já os meus comparsas de aventura em bib-shorts e pernas ao léu foram batendo o dente. Satisfeitos e com os focos apontados ao alcatrão, passamos pela Figueira da Foz à conversa para, com um pequeno engano lá pelo meio, no topo da Serra da Boa Viagem reagruparmos. Agora e sempre que surgisse uma pendentezinha, a subitida era já ultrapassada a um ritmo bem mais pesaroso.

Com praticamente um terço da distância por percorrer, logo voltaram as longas rectas da Tocha a Mira. Nesta altura já não se sente as pernas, quando muito sono e a desconfortável tortura do selim, que para mim já não era tão desconfortável assim. Do nada, um motor rosna, tenso, ameaçador à distância. Eu vi logo, o Fittipaldi saia de uma esplanada a queimar borracha. Café  aberto na madrugada significa uma tosta mista e um abatanado, e isso era algo de que eu estava bem necessitado. As paragens fazem-se agora mais demoradas para deixar o corpo descansar.

Os nossos heróis continuam firmes. O jovem Jacinto seguia o velho truque de se ir deixando ficar para trás, muito ao de leve, muito aos poucos, segurando garbosamente os seus ímpetos em nome da sobrevivência, e do rabo. Após um derradeiro esforço, avisa-me que ouviu os conselhos do seu joelho e decidiu aproveitar a reconfortante boleia do comboio urbano das quatro da manhã em Aveiro. Pedalar quase 350 km de uma assentada é desde logo um feito. Parabéns amigo Jacinto, somos gratos pela tua companhia, entusiasmo e inspiração. Outras mega loucuras virão.

O Homem-máquina, metade é a combinação complexa de articulações e músculos, a outra é uma bicicleta. Uma delas é infinitamente ajustável e adaptável, o outro é um ciclista. O ideal é uma união perfeita entre as duas separadas entidades, actuando em harmonia e vontade, excepto a realidade geralmente desigual, que envolve joelhos massacrados, costas doloridas e ombros queixosos.

Despedidas feitas, os três da vida airada aumentam o ritmo, puxando à vez na tentativa de aquecer o motor e distrair a soneira. Até ao dia clarear nada mais se passou senão pedalar com andamentos adequados às necessidades, evitando ter de levantar as nalgas do selim, evitando um desgaste extenuante e desnecessário. As pernas já reclamam descanso e até as subidas mais ligeiras, nos momentos em que a cadência das pedaladas fica reduzida ao mínimo indispensável, é precisa concentração máxima para enxergar as curvas, os cruzamentos e eventuais condutores matinais. À passagem por Ovar caem as primeiras pingas que refrescam ainda mais a carcaça. Faltavam cumprir cinquenta e poucos quilómetros.

Amanheceu, e a visão da cama de casa cada vez mais perto assustou-me. O manto de nuvens negras no horizonte prometia uma banhoca, muito antes de chegar a entrar na banheira. Contornada a praia do Cabedelo na Foz do Douro, já só faltava atravessar o rio para a escalada final da íngreme rua de D. Pedro V. Sentindo a meta já bem perto, com a luz de reserva bem acesa, veio o momento zen. Se São Pedro nos abençoou a partida haveria também de nos abençoar à chegada, na sua Afurada

Quatrocentos e tal mil metros depois, felizes e triunfais, famintos e cansados, após um dia inteirinho a dar ao pedal, eis que os nossos protagonistas se abrigam no mesmo abobadado alpendre da PSP da Afurada, param o registo no Strava e dão por concluído o giro para finalmente terem o merecido descanso.

E agora vou-me repetir:

Para algumas pessoas, estes tipos não passam de um grupo de cotas malucos metidos a radicais. Como assim!? Então, se pedalar por sete ou oito horas, até Fátima, fazem-no apenas por puro prazer e vontade, dar meia volta e voltar da mesma forma ao ponto de partida, é o quê? O mais importante não é o quanto pedalaram. O que importa é curtir a pedalada, apreciar a paisagem e o espírito de grupo. De outra forma eu não saberia descrever esta mistura de adrenalina, vento, sorrisos soltos, sol, curvas, natureza, chuva, esforço, contentamento, sacrifício, ar puro, sono, silêncio, escuridão, carros acelerados, pernas pesadas, vontade e puro prazer.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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5 respostas a Porto-Fátima-Porto, uma santa volta

  1. Nelson Branco diz:

    Maluqueira boa… Infelizmente 🙂 o meu selim não aguenta estas “loucuras.

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  2. paulofski diz:

    até nos podia ter dado para pior, mas acho que assim é mais que suficiente 🙂

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  3. daraopedal diz:

    Grande aventura e maluqueira. Continuação de muita pedalada.
    daraopedal

    Liked by 1 person

  4. paulofski diz:

    foi mesmo, obrigado.

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  5. Pingback: uma pedrinha na engrenagem | na bicicleta

apenas pedalar ao nosso ritmo.

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