total absurdo

O sentimento anti-bicicleta da sociedade encontra o seu caminho nas mais variadas e disparatadas facetas. Os ciclistas, urbanos e outros, não apenas enfrentam noções preconcebidas e discriminatórias por pedalarem as suas bicicletas nas ruas e estradas, aliás por todo o lado, como até mesmo num consultório médico se pode sofrer uma lesão só por ver por quanto ficou a fractura… ou melhor, a factura!!!

E isso torna-se agudamente evidente quando se lê isto (sim, aquilo ali em cima)! Sob o título “Mais ciclistas, mais acidentes”, a capa de ontem do Diário Oficial do Estado de São Paulo destacava a foto de um ciclista e a frase: “Especialista do HC (Hospital das Clínicas)  recomenda não usar a bike no trânsito, mas sim em parques públicos e ciclovias”.

O que lá vem transcrito é nada mais do que a opinião de apenas um ortopedista, o senhor Jorge dos Santos Silva chefe do grupo de trauma ortopédico do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas. Mesmo sendo a opinião dessa pessoa, à qual tem o direito livre de opinar, a partir do momento em que é publicado por um órgão oficial, no caso do governo do Estado de São Paulo, se responsabiliza por publicação de tal matéria.

Segundo o tal chefe de ortopedia, o aumento de acidentes nos últimos anos ocorre porque há mais ciclistas nas ruas e a cidade de São Paulo tem pouca estrutura para uso de bicicleta como alternativa de transporte. Depois recomenda: “Para não colocar a vida de quem pedala em risco, recomendo não usar a bike no trânsito de São Paulo. É uma opção segura de lazer em cidades menores, parques públicos e em ciclovias instaladas na capital, aos domingos”.

Então, quer dizer, o xôtor baseia a sua observação, estabelecendo uma relação causa/efeito, isto é, acidente rodoviário/lesão traumática, como consequência do ciclista nas rua! Daquilo que julga ser ” uma epidemia”, o aumento de utilizadores regulares de bicicleta nas ruas da cidade. Avalia depois os dados da sua prática assistencial mas inverte o ónus da responsabilidade. Para ele é o ciclista que deve ser retirado das ruas, tanto para assegurar a sua integridade física como para reduzir os acidentes. Não é o automobilista que deve ter o pressuposto da prudência e a tolerância em conviver com o ciclista: “saiba como não fazer parte dessa estatística”.

Em virtude das acesas reacções geradas por essa publicação, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde, responsável pelo texto, informou que a opinião do médico não representa a opinião desse órgão governamental. Em nota, o Governo do Estado de São Paulo informou que “é absolutamente favorável à ampliação do uso de bicicletas na capital e em todo o Estado, não só para lazer como também para trabalho. Trata-se de meio de transporte não poluente e que traz qualidade de vida às pessoas.” Informou ainda que tem feito esforços para melhorar “a oferta deste tipo de transporte à população”.

Mesmo assim é difícil entender como se permite a publicação dessa reportagem, onde o teor beira mesmo o terrorismo, com dizeres do calibre: “não seja a próxima vítima“, ou “Muitas vezes, os ciclistas são atingidos por automóveis ou por ônibus, o que torna comum a ocorrência de politraumatismos“. O leitor não sabe quem são essas pessoas, sejam elas experientes ciclistas ou automobilistas, responsáveis pelos acidentes. Nem se essa ocorrência é um acaso ou uma tendência. E não é porque esse médico tirou as suas conclusões, as quais acabaram escarrapachadas num artigo oficial, que se lhe deve dar todo o crédito.

Estranhamente, como médico e ortopedista, ignora mencionar os benefícios de saúde do ciclismo e desaconselha os paulistanos a pedalar. Mas a evidência mais anedótica do artigo é quando “a Secretaria de estado da Saúde informa que, no ano passado, 3.4 mil pessoas foram internadas pelo Sistema Único de Saúde paulista, gerando custo de R$ 3,25 milhões à administração estadual.”! Acho que aqui está tudo dito, pois afinal quer se tratar o mal pela raiz. O ciclista é que é o grande causador dos prejuízos advindos dos acidentes rodoviários ocorridos na cidade de São Paulo!!!

Felizmente, para o mundo, que a maioria das cabeças pensadoras não tira conclusões precipitadas. Sabe destrinçar o trigo do joio, a segurança e os benefícios de actividades específicas sobre a responsabilidade e causa dos acidentes. Não recomendam a eliminação deste benéfico e agradável estilo de vida com base em números economicistas nem no pressuposto que o ciclista é o causador de todos os males. Melhor se fosse!

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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